• É normal que imediatamente após o homicídio e/ou nas primeiras semanas após, os familiares ou amigos possam desenvolver os seguintes sintomas / sentimentos / comportamentos:


    Imediatamente após:

    • estado de choque emocional;
    • pânico;
    • fortes reações físicas e psicológicas (choro, falta de forças, apatia, tremor, etc.);
    • pânico de morrer;
    • impressão de estar a viver um pesadelo;
    • negação da morte do familiar ou amigo;
    • desorientação;
    • sentimento de solidão;
    • sentimento de impotência;
    • sentimentos de raiva e vontade de fazer justiça pelas próprias mãos.


    Nos dias e semanas seguintes ao homicídio:

    • dúvida quanto à normalidade das suas reações;
    • ambivalência emocional;
    • mudanças bruscas de humor;
    • início do processo de luto.


    Reações físicas comuns:

    • perda de energia;
    • diminuição dos níveis de resistência;
    • dores musculares;
    • dores de cabeça e/ou enxaquecas;
    • distúrbios ao nível da menstruação;
    • arrepios e/ou afrontamentos;
    • problemas digestivos (aumento ou diminuição do apetite, náuseas);
    • tensão arterial alta;
    • mudanças no comportamento sexual.


    Reações psicológicas comuns:

    • solidão;
    • culpa;
    • sentimento de ser injustamente tratado;
    • raiva;
    • desconfiança;
    • tristeza;
    • flashbacks (imaginação de imagens ou pensamento relacionados com o crime);
    • falta de motivação.


    A nível psicossocial é comum:

    • solidão;
    • tensões familiares e conjugais;
    • medo de estar sozinho;
    • sentimento de incompreensão por parte dos outros;
    • evitamento de locais que causam um sentimento de insegurança.


    A gestão destes sintomas, através do apoio psicossocial e psicológico da APAV pode ajudar a minimizar estes efeitos, trazendo, dentro da possibilidade, algum conforto e estabilidade para os familiares e amigos de vítimas de homicídio.




    • Perante a morte de alguém com quem se mantinha um vínculo de parentesco e/ou de afeto, entra-se em processo de luto. Trata-se de uma reação natural à perda de alguém e supõe a adaptação de quem perde à nova realidade da ausência. O luto é um processo psicológico pelo qual a tristeza experimentada por uma perda significativa vai sendo dissipada, num tempo variável.

      O luto exige um reajustamento ao novo contexto, no qual está aberto o espaço outrora ocupado pela pessoa que morreu. No entanto, é este reajustamento que proporciona o desenvolvimento de novas relações e a afirmação, ou reafirmação, de novos laços no futuro.

      O luto não é um fenómeno estático, mas um processo que implica, como todos os processos, uma progressão no tempo. Contudo, como em todos os processos relativos à pessoa humana, o luto é um processo sempre diferente de pessoa para pessoa, implicando características únicas e ritmos diferenciados que, além da realidade interior da pessoa, obedecem às particularidades próprias da circunstância em que ocorreu a morte do ente amado e a todas as circunstâncias históricas que ocorrem em torno da perda.


    • O luto é:

      • um processo pessoal. O luto é uma realidade pessoal, variável nas suas manifestações externas. Não é possível medir totalmente a extensão ou a profundidade de um processo de luto, pois este é desenvolvido por uma só pessoa, na interioridade da sua mente. Apesar de se descreverem algumas características gerais em inúmeras pessoas que perderam os seus entes amados, nas mais variadas circunstâncias, tempos ou lugares, e de haver alguma semelhança entre elas, estas características gerais não revelam a totalidade do que sente uma pessoa numa perda por morte. O processo de luto obedece a uma singularidade pessoal – à daquele que o desenvolve, em interação com uma multiplicidade de fatores internos e externos. É um erro julgar que um processo de luto possa ser apenas uma realidade conjunta (por exemplo, «uma família em luto»). Na verdade, sob um «luto conjunto», há vários processos de luto a decorrer, cada um com as suas particularidades e os seus ritmos próprios;
      • um processo complexo. O processo de luto, se for saudável, isto é, «normal», evolui naturalmente, de forma mais ou menos linear. Não é, no entanto, um processo simples. Durante o seu desenvolvimento, interferem múltiplos e complexos fatores, de ordem histórica (sobretudo relacionadas com as circunstâncias da morte do ente amado), psicológica, familiar e social, entre outras.

    • Comportamentos e Reacções do Processo de Luto “Normal”

      Num processo de luto considerado «normal», sentem-se emoções e têm-se comportamentos que podem afastar-se consideravelmente dos hábitos e das atitudes que eram correntes antes da perda.

      Diferem, no entanto, de desvios mentais profundos, de natureza patológica (por exemplo, a paranoia, o estado maníaco e até mesmo a depressão). O que é vivido num luto normal é um conjunto particular de condições emocionais, visando uma saída saudável para a perda.


      Os aspetos mais marcantes de um processo de luto normal, em termos de condições, são:

      • Um desânimo profundo, isto é: falta de vontade geral para a vida, pelo que todo o quotidiano é vivido com esforço e de forma penosa;
      • Um grande desinteresse pelo mundo exterior, uma vez que este não pode voltar a ser o mesmo, nem pode devolver o ente amado;
      • Uma perda de «capacidade para amar de novo», por não se conseguir aceitar que alguém venha a ocupar o lugar deixado vazio pelo ente amado – uma vez que se considera que este é insubstituível;
      • Uma dificuldade em desenvolver toda e qualquer atividade que não esteja simbolicamente associada à memória do ente amado.


      Os sintomas apresentados por uma pessoa em luto manifestam-se ao nível:

      • psicológico, a pessoa em luto vai sentindo, no geral, um grande adormecimento, alternado com expressões de raiva, sentimento de culpa, autorecriminação, ansiedade, solidão, fadiga mental, desamparo, choque, estarrecimento, tristeza profunda, angústia, descrença, confusão, a inquietante sensação da «presença do ente amado» (como se não tivesse morrido, podendo mesmo chegar a ter alucinações visuais e/ou auditivas) e uma sensação de despersonalização (sentir-se «desfeito em pedaços»). A pessoa tem também sonhos frequentes com o ente amado, bem como sente necessidade de recordar episódios felizes vividos por ambos, tentando visitar os lugares que foram cenário dessas memórias e guardando objetos alusivos a esses episódios. Pode ter também crises de choro compulsivo, nas mais variadas ocasiões, mesmo quando não está inserida num contexto relacionado com o ente amado.
      • físico, é frequente sentir um «vazio no estômago», um «aperto no peito», um «nó na garganta», uma hipersensibilidade ao ruído, falta de ar, suspiros profundos, fraqueza muscular, falta de energia e a boca seca. Um cansaço progressivo vai liquidando as poucas energias que a pessoa já tem, sobretudo porque se verificam geralmente grandes alterações do sono e do apetite.
      • social, o processo de luto conduz inevitavelmente a alterações de comportamento. E, logo, a alterações nas relações da pessoa em luto com os outros, em ambiente social. Assim, para além da pessoa ter um comportamento «flutuante» (isto é, parece que «flutua sobre os acontecimentos do quotidiano», sem se empenhar, ou envolver, neles), «dormitando» e esquecendo pequenas e grandes tarefas do dia-a-dia (o que causa transtornos no emprego, por exemplo), começa a praticar um progressivo isolamento social, distanciando-se de familiares e/ou amigos, de grupos de convívio e, de uma forma genérica, de ocasiões onde haja aglomerados de pessoas.



      • O sofrimento vivido por uma pessoa em processo de luto, especialmente intenso ao nível psicológico, não deixa de se fazer sentir ao nível físico, afetando a saúde e a organização do quotidiano. Pode, assim, atingir todas as dimensões da vida da pessoa, quer ao nível indivíduo, quer aos níveis familiar, profissional e social, podendo ser gerador de múltiplos problemas.

        O processo de luto não tem manifestações mais ou menos aleatórias no tempo. Verifica-se um desenvolvimento ordenado e gradual, num período determinado, geralmente de seis meses a um ano, ou um pouco mais, dependendo das pessoas e das situações concretas de perda.

        Sendo um processo dinâmico, obedece geralmente a um sucedâneo de tendências, pelo que a sua compreensão poderá ser feita através da observação de três fases,que representam as diferentes dimensões pelas quais a pessoa em luto vai passando. A complexidade de cada uma destas fases pode, no entanto, ser tão grande, que leva alguns autores a chamar-lhes um processo em si, o que significa que, dentro do mesmo processo de luto, cada fase pode ser de tal ordem intensa que ela própria é um «processo dentro do processo».


        Estas fases são:

        • A Fase da Crise
        • A Fase da Desorganização
        • A Fase da Organização



        • Inicia-se invariavelmente aquando da receção da notícia da morte e abre o período mais súbito e chocante do processo de luto. O choque poderá ser, no entanto, mais atenuado se a pessoa tiver pensado que aquela notícia, de facto, era inevitável, a curto prazo. De qualquer modo, a pessoa experimenta sempre um embate emocional. Este impacto pode ser sentido por muitas horas, chegando a durar uma semana inteira. Pode ser interrompida por repentinas explosões de aflição e de ânsia. A tensão arterial aumenta, bem como o ritmo cardíaco.

          Ocorre também, nesta fase, uma «dormência» ou «torpor», que é consequência natural do choque vivido, na qual a pessoa sente que «flutua sobre os acontecimentos», com a vaga sensação de que está a viver um pesadelo, ou seja: que não está totalmente acordada e consciente da realidade. É como se estivesse «anestesiada».

          É frequente incluir-se nesta fase uma negação emocional da perda. A primeira reação de muitas pessoas é, justamente, a negação imediata da notícia, manifestando repulsa (por exemplo, empurrando agressivamente a pessoa que dá a notícia, ou mesmo agredindo-a) e tendo expressões de rejeição (por exemplo, gritar: «Meu Deus, não pode ser! Não é verdade! Não pode ser!»). É muito comum, quase geral, que a pessoa necessite de receber mais informações sobre a morte, complementares e desenvolvidas, para assimilar a notícia (por exemplo, perguntar de imediato quando ocorreu a morte, como, onde está o corpo do ente amado, etc.).

          Ainda que tenha aceitado a perda racionalmente, a pessoa que perdeu o ente amado tende a comportar-se como se não tivesse ocorrido, de facto. Trata-se de uma defesa emocional imediata em relação a um sofrimento agudo. Certos gestos subtis podem estender-se no quotidiano, denunciando que a pessoa não quer acreditar que o ente amado morreu (por exemplo, mantendo intactos e limpos os seus objetos pessoais; mantendo a sua última mensagem ou chamada telefónica na memória do telefone; referindo-se ao ente amado como se ainda estivesse vivo, etc.).

          Também são frequentes os casos em que a pessoa apresenta as suas desculpas a quem é devido apresentá-las (por exemplo, aos familiares mais próximos do falecido), explicando a sua ausência nas exéquias com o seu desejo de recordar o ente amado apenas com «as boas lembranças de quando ele vivia», e não com lembranças dos rituais fúnebres, ou mesmo do cadáver. Algumas chegam mesmo a afirmar não querer participar nas exéquias para não admitir que o ente amado, com efeito, morreu. Noutros casos, desculpa-se simplesmente com um «Não gosto de funerais».

          Outra forma de negação é uma repetida questionação (por exemplo, «Porque tinha de morrer o meu marido e não outro?», etc.) cheia de ira e de revolta; de desejo de vingança; de medo e de ansiedade. Esta negação, nestes primeiros tempos é considerada normal, mas, se persistir, poderá ter implicações negativas no desenvolvimento saudável do processo de luto, concorrendo para configurar um luto patológico, que adiante será abordado. Tratar-se-á de uma negação doentia.

          Podem inscrever-se nesta Fase da Crise momentos tão dolorosos como o dever de comunicar a morte do ente amado aos outros familiares, amigos e conhecidos. A pessoa sente-se desconfortável, pois não só não consegue pensar na melhor forma de o comunicar, como se vê obrigada a suportar, por instantes que seja, as reações dos outros (sobretudo, choro compulsivo, negações, perguntas, confusão, etc.).

          Outro dever que cabe cumprir a alguma das pessoas da família, ou a algum amigo, pode ser o da identificação do cadáver, se esta for necessária. A visão do ente amado morto, despido e metido quase anonimamente na mesa de uma morgue – e em tantos casos de atos homicidas, desfigurado por uma morte violenta – pode ser um momento muito doloroso. A realização da autópsia também pode ser uma necessidade suscetível de perturbação para quem imagina que, depois de uma morte violenta, o corpo do ente amado sofrerá também a exposição a exames forenses, sendo «aberto e remexido».

          Em muitos casos, só depois de muitos dias de diligências médico-legais, de notícias nos órgãos de Comunicação social e de sofrimento para quem perdeu um ente amado, podem ser realizadas as exéquias. Estas constituem geralmente um momento de grande importância no processo de luto. São, para muitas pessoas, o momento mais traumático depois da receção da notícia. É nesta ocasião que se deparam com a «materialidade da morte», ou seja, com a evidência material de que o ente amado realmente morreu, vendo o seu cadáver, ou vendo a urna funerária onde se encerram os seus restos mortais. As exéquias podem ser, para algumas, o momento de expressão de emoções (por exemplo, gritando e chorando, ou insultando alguma pessoa, presente ou ausente, que considere culpada daquela morte), como que aproveitando «as últimas horas», ou «os últimos instantes», de «contacto» com o seu ente amado. Outras vivem as exéquias num profundo abatimento, ou mesmo numa apatia, quer estejam medicadas ou não. O silêncio para elas é o lugar de toda a intimidade, de todo o «contacto», ou de «despedida» do ente amado. Só depois das exéquias, expressam as suas emoções.

          Na Fase da Crise, por fim, a pessoa em luto «sente a presença do ente amado» com muita frequência, «vendo», «ouvindo», tendo a impressão de que este continua vivo (por exemplo, que continua a ocupar o seu quarto de dormir, a sua secretária, o seu cadeirão de leitura, etc.), tornando-se muito sensível a quaisquer estímulos exteriores que estejam associados, pela memória, àquele/àquela que perdeu (por exemplo, ao perfume que usava, à cor e à música que preferia, etc.). Frequentemente, a pessoa em luto pensa que está «a ficar louca».

          Toda a Fase da Crise é povoada por medos, sentimento de insegurança, desejo de vingança, expressões de raiva (por exemplo, chorar, gritar, socar objetos), culpa «por não ter feito nada para impedir» (mesmo que lhe fosse impossível fazer algo). Alguns autores referem uma espécie de «teste à realidade», ou de «provar o real», a que a pessoa se submete a si própria, inconscientemente, para encarar algo que, por tendência defensiva, preferia ignorar: a morte do ente amado. Daí que peça, com insistência, todas as informações disponíveis sobre o que realmente aconteceu, para, de facto, «crer na verdade do que aconteceu».

          Em alguns casos, a informação disponível pode ser muito limitada, pois parte dela está sob Segredo de Justiça, sendo usada unicamente para fins de investigação criminal. A pessoa tende a não aceitar esta limitação, ficando ansiosa sobre «o que estarão a esconder-lhe», tornando-se desconfiada e agressiva em relação aos próprios investigadores, com os quais seria importante, pelo contrário, colaborar.

          Em muitos casos, a Fase da Crise inicia um longo período de dificuldade para a pessoa, o qual só será ultrapassado quando esta estiver na posse de um real, completo e claro entendimento do que foi a morte do ente amado. Isto terá especial relevo nos casos de homicídio, nos quais o processo de investigação criminal, a identificação de pessoas suspeitas, a sua detenção, acusação, julgamento e condenação são determinantes. O sentimento de que foi feita justiça em tribunal, para além de inibir os frequentes desejos de vingança (ou de «justiça pelas próprias mãos»), ajuda a desenvolver saudavelmente o Ciclo do Luto. Isto, contudo, nem sempre é possível, ou pode demorar muito.


        • Na Fase da Crise, em caso de suspeita ou constatação de crime, tem início o processo de investigação criminal. Em alguns casos, a investigação inicia-se mesmo antes (por exemplo, quando a vítima desapareceu, por ter sido raptada, ou porque o seu cadáver foi ocultado por algum tempo). É comum que a investigação se desenvolva em simultâneo com o próprio processo de luto, podendo arrastar-se para além dele e mesmo comprometer o seu saudável desenvolvimento.

          A Fase da Crise é todo um período de imediatismo e de choque com a dura realidade da perda. A pessoa que perde subitamente um ente amado – e por este ter sido vítima de crime – sofre uma espécie de dormência emocional, ou «anestesia», que também se confunde, em muitos casos, com o efeito de sonolência induzido pela toma de comprimidos calmantes e antidepressivos.

          É frequente a pessoa em luto sentir uma prostração intensa, «como se tivesse sido violentamente agredida», ou «como se tivesse sido despenhada do alto de um monte». Sente dores no corpo e uma sensação de grande mal-estar físico. Sofre também uma grande irritabilidade, com crises de choro compulsivo e em voz alta. Em algumas culturas, estas crises são inclusivamente encorajadas pelos que a rodeiam, quer porque lhes parece ser terapêutico (e pode sê-lo, com efeito), quer dando corpo a uma manifestação cultural: cânticos, litanias e lamentos fúnebres, fórmulas não fixadas textualmente, mas convencionadas pela tradição oral. Apesar de, algumas vezes, poderem parecer, aos olhos alheios, uma mera produção folclórica, de mau gosto e até decadente, a verdade é que têm sido apontadas como uma maneira de dar vazão às poderosas emoções que avassalam o interior da pessoa que sofre uma perda.

          Na Fase da Crise podem influir diversos fatores, condicionantes de cada processo de luto, por, além de diversos, serem vividos de forma também diversa por cada pessoa. Assim, entre outros, influem: a intensidade com que foi cometido o crime (por exemplo, a vítima ter sido mutilada viva, ou torturada com ferros em brasa); o carácter súbito do crime (por exemplo, um homicídio num meio de transporte público); a e premeditação do crime (por exemplo, saber-se que a vítima há já algum tempo vinha sendo ameaçada de morte).

          Também são importantes os contornos conhecidos ou desconhecidos da história do crime, isto é, do processo histórico que deu origem ao homicídio. Esta história pode ter contornos de conhecimento público mais ou menos acentuados (por exemplo, através de uma exploração com muitas vítimas mortais e consequente difusão pelos órgãos de Comunicação Social) ou ser totalmente desconhecida pela família e/ou amigos da vítima (por exemplo, que a vítima foi esquartejada depois de morrer); bem como detalhes impressionantes (por exemplo, descobrir-se que os autores do crime fizeram uma pintura na parede com o sangue da vítima).


      • Esta fase ocorre quase sempre uns dias depois da morte do ente amado e das suas exéquias já cumpridas, sobretudo, o velório e funeral, restando, em alguns casos, outras liturgias, a realizar em datas posteriores à sepultura. Em alguns casos pode, no entanto, surgir umas semanas depois, na medida em que tiver demorado a Fase da Crise e na intensidade que esta teve.

        A morte do ente amado deixa uma sensação de vazio e um sentimento de desorientação. A vida, num repente, parece ter perdido o sentido. Tudo se desorbita e as perspetivas de entendimento e organização da vida pessoal, nos seus mais variados aspetos e interseções, começam a sofrer de uma grande desorganização.

        Passados os momentos mais marcantes e públicos da morte do ente amado (por exemplo, a receção da notícia, o reconhecimento do cadáver, a profusão de peças nos órgãos de Comunicação Social, a realização das exéquias, etc.), passa todo um imediatismo e chega o peso dos dias que tem de enfrentar – em casa, na família, nas relações de amizade, no trabalho. Se aqueles momentos já passaram (já foram «resolvidos», do ponto de vista prático), a pessoa em luto tem agora algo não menos difícil para resolver: a sua vida, abalada pela perda, cheia de desafios.

        A vida, então, poderá ser vivida com ansiedade e medo. Em alguns casos, não se tratará de algo imaginado ou difuso – a ansiedade e o medo prendem-se naturalmente com a existência de um processo de investigação criminal que está a decorrer, no qual a pessoa vai colaborando, mas de cujo desenvolvimento pouco vai sabendo. Ansiosa, poderá temer que o processo esteja «parado», que não haja interesse por parte das autoridades competentes ou que não seja mesmo possível descobrir-se a identidade dos autores do homicídio e que, portanto, estes não possam ser detidos, acusados, julgados e condenados. Este panorama acentua o medo de vir a ser uma próxima vítima, ou de algum membro da sua família estar sob o olhar assassino de alguém que se desconhece, mas que pode estar perto. A ansiedade e o medo poderão aumentar se alguns aspetos da investigação criminal indiciarem que este poderá atacar de novo e se, para o prevenir, algumas pessoas tenham de passar a estar vigiadas para sua segurança.

        Nesta fase, a pessoa em luto sofre de desalento e a sua dor pode ser tão angustiante que facilmente acredita, de novo, estar «prestes a enlouquecer»: tudo ameaça ruptura e caos. Tende, por isto, a tornar-se irritável, reagindo de maneira negativa e brusca a determinados estímulos, por pequenos e inócuos que sejam. Pode tornar-se agressiva e até injusta com os que a rodeiam, chegando a ser indiferente ao sofrimento que lhes provocou. Sente, por vezes, que nenhum sofrimento poderá ser maior que o seu.

        Uma amargura quase instalada pode durar semanas, meses, até anos, não podendo prever-se quando se dará a passagem a uma nova fase do Ciclo. Tentando sobreviver o melhor possível, a pessoa em luto, sobretudo se tiver apoio direto de familiares e/ou amigos e de profissionais especializados, pode retomar, aos poucos, a energia de uma vida ativa, redefinindo estratégias e figurando novas perspetivas de futuro. Para alguns, esse é, no entanto, um trabalho árduo, cheio de «avanços e recuos». Para outros, passa por uma dissimulação da tristeza, de modo a veicular uma imagem de segurança e confiança para a família (sobretudo quando têm filhos pequenos) e para os amigos, o que, inevitavelmente, conduz a um maior isolamento e a estados de desamparo.

        Nesta fase, domina a saudade. Trata-se da recordação da «falta que faz quem que não está presente» ou da «ausência de quem se ama», um sentimento ligado ao desejo do seu regresso – um regresso impossível. A saudade é, muitas vezes, uma recusa da própria perda, numa incapacidade de abdicar da presença do ente amado, como se a recordação permanente, devidamente suportada por símbolos e rituais específicos (por exemplo, mantendo inalterado o quarto de dormir do ente amado, etc.).

        A saudade está também ligada à agressividade, numa recusa violenta da realidade da morte. Frequentemente, uma pessoa em luto passa da saudade à raiva, por já não poder ter o ente amado. Em casos de homicídio, esta raiva está intensamente ligada ao ódio pelos responsáveis pelo homicídio e ao desejo de vingança.

        A saudade é um sentimento universal, mas com expressões profundas em determinadas culturas (por exemplo, na cultura portuguesa). Estas acabam por facilitar a sua permanência constituindo-se em aspeto negativo, já que deixa, em muitos casos, de ser algo transitório para ser persistente. E, enquanto persistir, o processo de luto não pode desenvolver-se de modo saudável.

        Outro aspeto importante desta fase (e em especial, na vivência da saudade) é a busca persistente, por parte da pessoa em luto, do ente amado, em símbolos, celebrações, rituais comemorativos, locais votivos, etc. Trata-se, em parte, da vivência de aspetos culturais (e, em muitos casos, religiosos), que acabam por configurar muitos aspetos do processo de luto. Podem, aliás, facilitá-lo, sendo considerado positivo, de uma forma geral, que estes atos sejam realizados, participando neles quem, de acordo com a sua consciência, de acordo com a sua religião, quiser atribuir novos significados à morte de alguém, em especial o de se gerar uma união, uma solidariedade entre os familiares, os amigos, por vezes uma comunidade inteira, em torno da memória do ente amado que perderam. Podem ser celebradas diversas liturgias (de cariz religioso ou não), com leituras (por exemplo, de textos da autoria do ente amado; poemas; etc.); podem ser feitos discursos (por exemplo, cada um dar o seu testemunho sobre a relação que tinha com o ente amado); ou podem ainda ser utilizados símbolos e rituais (por exemplo, plantar uma árvore; lançar flores a um rio; fazer uma visita à sua sepultura, deixando ali flores e candeias acesas, etc.). Para celebrar a memória das vítimas de atos homicidas, muitas cidades erguem monumentos públicos, que recebem as homenagens dos familiares e amigos das vítimas, ou de pessoas anónimas, em especial no aniversário da sua vitimação.

        Estes atos podem facilitar, com efeito, uma passagem desta Fase à seguinte. Com o tempo, e se o processo de luto for desenvolvido de modo saudável, uma progressiva libertação vai ocorrendo. A perda do ente amado foi já totalmente assimilada e a vida começa a ser perspetivada com renovação. A perda do ente amado e a dureza do processo de luto dão lugar a uma maior serenidade.


      • A dor da perda começa, pois, a ser extinta e começa a haver um equilíbrio, ao nível da saúde física e psicológica.

        A pessoa em luto sente-se agora capaz de perspetivar a morte do ente amado, de a refletir, de racionalizar as informações disponíveis e fazer julgamentos sobre diferentes aspetos desta. É também capaz de tratar e resolver problemas complexos. Começa a inserir-se numa multiplicidade de ajustamentos e novas perspetivas, concebendo, com energia, novos objetivos para a sua vida. Estes podem ser observáveis por familiares e/ou amigos, e/ou por profissionais que tenham acompanhado a pessoa em luto desde a Fase da Crise.

        É também nesta Fase que, em muitos casos, a pessoa em processo de luto começa a sentir-se novamente disponível para amar outra pessoa (no caso de ter sido o marido/mulher, companheiro/companheira, namorado/namorada, a morrer) e/ou para estabelecer novas relações de amizade.

        A lembrança do ente amado deixa de ser uma permanente «dor da falta», ou uma «dor da ausência», isto é, aquela saudade persistente e torturada, mas uma memória saudável, que marca no pensamento da pessoa um passado importante, feliz, parte decisiva da sua história e da sua identidade, mas algo perdido e já ultrapassado. É uma memória acomodada que não gera instabilidade ou desorganização, mas adaptação e caminho para o futuro sem luto.


      • A morte de um filho é geralmente descrita como um dos acontecimentos mais dolorosos da vida de alguém. O sofrimento vivido pelos pais, independentemente da idade do seu filho morto, é dilacerante. Se comparado à dor sentida pela morte de uma outra pessoa da família, é extraordinariamente intenso.

        A morte de um filho, pequeno ou crescido, torna-se, assim, em quase todas as culturas, a mais absurda das mortes, aquela a que alguns chamam mesmo de «a morte antinatural», ou «a que fica para além de toda a ordem natural da vida».

        A vinculação afetiva dos pais aos filhos é geralmente intensa, em parte porque os filhos são vistos como a continuidade dos pais, a sua projeção no futuro, como que marcos vivos da sua passagem pela vida. Por isso, o processo de luto é complexo, por vezes com o desenvolvimento de manifestações menos comuns.

        O acontecimento da perda de um filho pode, pois, arruinar o equilíbrio emocional e oferece o grande risco do desenvolvimento de patologias do foro psiquiátrico. A morte de um filho na infância, mais que qualquer morte, tem sido descrita como uma espécie de «extração violenta de parte do Ser», como que um «arrancar um pedaço» vital da sua identidade pessoal. Não será por acaso que é também o processo de luto que, de uma forma geral, é o mais prolongado no tempo, independentemente da estrutura de personalidade daquele que o sofre. Mesmo evoluindo linearmente, dentro das fases do Ciclo do Luto, algumas manifestações dolorosas, como a tristeza, a culpa, a ansiedade e o medo podem permanecer para toda a vida. Apesar de se revelarem em graus mais ou menos elevados, e de se tornarem cada vez menos frequentes, estas manifestações persistem, nunca chegando a desaparecer totalmente.

        Para um pai ou uma mãe, a morte de um filho sofre-se com a mesma intensidade seja em que idade acontecer – seja um recém-nascido, um bebé, uma criança, um adolescente, um adulto, ou mesmo um idoso. Os relatos de pais que perderam filhos em diferentes idades assemelham-se. Isto acontece em relação a filhos únicos ou a filhos que pertenciam a uma fratria mais ou menos extensa.

        Para a família, a morte da criança ganha outra significância, por todo o investimento (afetivo, familiar e social) feito nela – do quanto foi, pelos país, desejada, cuidada, admirada, enfim amada, nos poucos anos em que viveu. A perda da criança desorbita as vidas dos seus pais, desestabiliza a sua idealização de felicidade, de realização humana. O planeamento que para esse fim tinham concebido, e para o qual canalizavam a grande maioria das suas energias, entra em rutura.

        Com efeito, muitos casais não suportam o desabamento sofrido nesta perda, acabando por separar-se, como se a perda permanecesse entre eles, cerceando qualquer plano de futuro que juntos viessem a construir. Dissolvida a união conjugal, pela separação ou pelo divórcio, tentarão desesperadamente dissolver o poder da sua dor, como se, não estando juntos, também ela pudesse ser «separada, reduzida a pedaços».

        De resto, cada um, o pai e a mãe, vive de modo individual o processo de luto, dependente, num e noutro, das suas personalidades. Difícil se tornará gerir dois processos de luto, diferentes, simultaneamente paralelos e tão semelhantes, já que se iniciaram pela morte do mesmo ente amado.

        Há, assim, uma séria influência dos papéis tradicionais de género. O pai é geralmente mais inibido nas expressões da sua dor e recebe, em muitos casos, a dura missão de apoiar a mãe – como se ele não sofresse tanto como ela, como se um homem, simplesmente por ser homem, tivesse nascido forte, imperturbável e impávido. Esta ideia resulta de antigas conceções culturais, derivadas de sociedades patriarcais, onde os homens eram vistos como o «sexo forte» e as mulheres o «sexo fraco», esperando-se, por causa desta mítica fraqueza, que estas recebam, de imediato, a proteção, o amparo, a contenção dos seus maridos ou companheiros, os «fortes».

        Um pai pode sofrer tanto como uma mãe, não sendo, sequer, possível medir a sua dor para a comparar com a dor desta, nem sendo também correto exigir de um pai que perdeu o seu filho que deixe de parte o seu processo de luto para atender, em exclusividade, ao processo de luto da mãe.

        No entanto, a família, a entidade patronal, a sociedade em geral, tendem a não perdoar a fraqueza de um pai que manifesta não ser capaz de apoiar a mãe, renunciando, assim, a corresponder às expectativas que, à sua volta, se formaram, segundo critérios tradicionais quanto aos papéis de género. Isto explica porque voltam os pais mais rapidamente à sua vida quotidiana, ao emprego, etc., que as mães, a quem parece ser mais desculpável a incapacidade e o bloqueio, permanecendo em casa mais tempo.

        Na verdade, a crença na fortaleza inata dos homens acaba por sacrificar um pai que tenta desenvolver um processo de luto saudável, já que lhe é negada a mesma oportunidade que é dada à mãe. Isto reflete-se, entre outros aspetos, na contenção emocional que ele próprio acaba por ter, pois, sendo homem, até na morte de um filho não pode ter manifestações emocionais consideradas exageradas para um homem, sendo aceitáveis, ou mesmo típicas, numa mulher (por exemplo, chorar muito alto, gritar, abraçar alguém, desmaiar, etc.). Ao ser olhado como uma espécie de «Guardião da Família», ou de autoridade chamada «Pai de Família», ou «Chefe de Família» (numa conceção cultural tradicional) não é fácil admitir que vacile, que não se imponha com serenidade e calma, que não estenda a sua sombra protetora sobre os outros membros da sua família, a começar pela sua mulher ou companheira. Também é por esta razão que mais facilmente um pai se sente culpado da morte de um filho (por exemplo, por um homicídio), já que «falhou» na sua missão de protetor, tendo iniciado esse falhanço primeiro como homem e, depois, como pai.

        Por outro lado, muitos pais, para demonstrar segurança às suas mulheres ou companheiras, e aos filhos vivos que têm (os irmãos do filho que morreu), bem como ao resto da família e amigos, remetem-se a um silêncio quase permanente, negando a si próprios a necessidade de expressar a sua dor, quer verbalizando-a, quer chorando, quer pedindo ajuda a alguém, enfim, reconhecendo que têm o direito de sofrer abertamente a perda de um filho. Esta atitude radica também em conceções culturais antigas quanto aos papéis de género.

        Com muita frequência, as suas mulheres ou companheiras queixam-se da sua ausência emocional, do seu silêncio, em suma, da sua falta de apoio. As críticas que alguns pais recebem durante o próprio processo de luto, dentro da sua própria família, são mais um aspeto negativo a dificultar o desenvolvimento do processo de forma saudável. Acabam, muito frequentemente, por ser uma desilusão para toda família, convertendo-se, assim, num elemento cada vez mais à margem.

        Já as mães que perderam um filho, não só recebem uma maior atenção e dedicação por parte da sua família, da entidade patronal, da sociedade em geral, como também ocupam, nas perceções destes, o lugar central de uma família em luto. Isto advém de conceções culturais de origem muito remota, segundo as quais as mães possuem uma especial ligação aos filhos, como que um «cordão umbilical imaterial», ligação mítica que foi abruptamente cortada. Crê-se que as mães sentirão mais a morte de um filho que os pais.

        O que diferencia as mães dos pais num processo de luto, pelo menos em termos sociais, é justamente a expressão de sentimentos e emoções, que nas mães é mais livre e nos pais tende a ser mais contida, ou mesmo a ser suprimida.

        Algumas mães exteriorizam tanto a sua dor, a sua raiva, a sua angústia que algumas pessoas, em especial as da família e os amigos, chegam a pensar que «rapidamente chegarão à loucura». Esta ideia leva-as à tentativa de controlar as suas reações, providenciando medicação (nem sempre adequada) para inibir a violência das suas expressões. Esta violência assusta-as e julgam que poderá, de algum modo, «fazer mal» à própria mãe. É uma realidade especialmente presente em casos de homicídio de crianças.

        Com a perda da criança pode perder-se o polo central de todo um complexo campo de divergências entre o casal, que, no quotidiano, encontravam no filho um eixo de motivação, ou de constante reconciliação75. Outrora insignificantes, pequenas coisas quotidianas podem agora assumir gigantes proporções, a par de toda a agressividade própria de um processo de luto.

        Agredir quem é mais íntimo e mais próximo é, de resto, algo muito generalizado. É comum – e, afinal, tão humano – dirigir toda a raiva acumulada para quem se ama, pessoa que, à partida, sustentará tal ímpeto sem ter uma reação negativa a médio ou longo prazo. Afinal conhece e ama também, compreendendo certamente e perdoando depressa. Num casal em processo de luto acontece que, no entanto, a outra parte está igualmente fragilizada – pela mesma razão, pela mesma perda do filho de ambos. E vive a mesma necessidade de expandir a sua raiva, dirigida, claro está, ao outro, o companheiro/a companheira, ou o marido/a mulher. É, então, frequente que as acusações mútuas se sucedam e a vida conjugal se degrade ainda mais.

        Compassivamente, cientes da dor que ambos sentem, o pai e mãe de uma criança morta podem transformar a sua história e dar-lhe uma continuidade cheia de esperança e de futuro, auxiliando-se, mútuos, no processo de luto de cada um. São afinal, processos muito similares e dizem respeito à perda do mesmo ente amado. É comum desenvolverem ambos estratégias de sobrevivência conjunta, de modo a enfrentarem como casal, juntos, toda a adversidade que lhes advém na vida quotidiana77. Essa é, aliás, uma necessidade para a qual despertam rapidamente se têm outros filhos, aos quais é preciso dar toda a atenção. Também eles vivem processos de luto muito penosos pela perda do seu irmão/da sua irmã, pelo que devem ser auxiliados.

        Se não têm outros filhos, e podem ainda perspetivar o nascimento de uma outra criança, é frequente que um casal deseje recomeçar toda uma planificação para que tal desejo se concretize. Geralmente conscientes de que essa segunda criança jamais poderá substituir a que antes lhes morreu – criança que foi única e irrepetível –, saberão também que um novo filho poderá congregar tudo o que de positivo outrora existia na família e que, em parte considerável, sobreviveu à perda.

        Diferente é a situação dos pais separados ou divorciados à data da morte da criança. Durante a Fase da Crise, geralmente mantêm-se próximos, sendo comum haver manifestações de grande empatia entre ambos, como que «um reencontro» na perda do filho comum. Alguns chegam mesmo a tentar estabelecer uma nova relação conjugal, como se esta pudesse recuperar os vínculos afetivos com o filho perdido. Mais comum, no entanto, é haver entre ambos momentos de conflituosidade e agressividade, que dependerão, em parte, da história da sua relação conjugal passada e com a sua relação presente. A atribuição de culpa da morte da criança ao que tinha sobre ela tutela direta é, por muitas vezes, violenta. Também é muito comum a responsabilização recíproca daquela perda – mais comum que nos pais que estavam juntos, ou casados. O afrontamento pode originar, quer num, quer noutro, danos psicológicos irreparáveis, complicando os seus processos de luto.

        Os filhos são insubstituíveis. Os pais que perdem os seus filhos sentem que outro jamais poderá ocupar o seu lugar. Daí que reajam negativamente a algumas tentativas de conforto emocional de algumas pessoas (familiares, amigos ou conhecidos), que lhes referem a existência dos seus outros filhos como uma razão viva para não permanecerem tristes, pois «Tendes outras crianças»; ou «Pior seria se vos tivesse morrido um filho único, pelo menos tendes mais filhos». A dor daquela perda nunca poderá ser colmatada pela existência dos irmãos ou irmãs que continuam vivos.

        Outros comentários podem ser verdadeiramente cruéis, pois, além de insinuarem certa desvalorização da sua perda, apresentam alguma pressão, no sentido de rapidamente substituírem a memória da criança perdida por uma nova criança (por exemplo, «Deixa lá, tens de engravidar depressa para esqueceres tudo isto. Quando tiveres outro bebé, vai ser mais fácil.»). Em alguns casos, o casal sabe ou receia que tal seja impossível, por causa da sua idade ou da sua saúde reprodutiva.

        Única, irrepetível, aquela criança nunca deixará de ocupar o seu espaço afetivo na memória dos seus pais. Mas, de facto, quando os pais têm outros filhos, estes necessitam, mais que nunca, da sua presença e apoio. Também eles vivem os seus processos de luto pela perda do seu irmão ou irmã. A morte de uma criança obriga a um reajustamento dos papéis e a uma reorganização da família. O abalo é profundo e os lugares ocupados por cada um nas relações acabam por ser alterados. Uma «arrumação relacional» deverá começar, por exigência própria dos papéis assumidos anteriormente, pelos próprios pais. Os seus filhos, sobretudo se ainda forem pequenos ou adolescentes, esperam deles essa «arrumação». Mais adiante, serão referidas as dificuldades específicas de uma criança em processo de luto, diferentes do processo de um adulto.

        As crianças que perdem um irmão ou irmã pedem aos seus pais o amor suficiente e a força que desperta sentimentos de segurança e proteção, num período tão dramático das suas vidas. Apesar disto, são, em muitos casos, os elementos da família que menores cuidados recebem, sobretudo quando são muito pequenos. Os adultos, ocupados e absorvidos nos seus próprios processos de luto, tendem a descurar o sofrimento emocional dos mais pequenos. A perda de uma criança origina muitas vezes uma atitude geral de negligência por parte dos pais em relação às restantes crianças. Em muitas famílias, é um familiar, ou mesmo um empregado da família, que trata das crianças e lhes explica – e nem sempre adequadamente – o que está a acontecer na sua própria família.

        Quando os irmãos da criança falecida são pequenos, os pais, em muitos casos, julgam-nos incapazes de compreender e de lidar com a notícia da morte e com a perda. Fantasiam que se lhes pode ocultar eternamente a realidade, chegando a inventar histórias de substituição, que contam aos seus filhos sempre que eles perguntam pelo seu/sua irmão/irmã (por exemplo, que «Foi fazer uma viagem», que «Foi para uma escola muito longe», etc.). Estas histórias, para além de serem perniciosas por não corresponderem à verdade, podem potenciar a ansiedade das crianças, já que o/a irmão/irmã não mais voltará.

        Em relação aos outros filhos, os pais podem também assumir uma atitude de constante vigilância. O pavor de sofrer uma nova perda, com a morte de um segundo filho, pode levá-los a uma proteção tão estreita que podem tornar-se asfixiadores da própria liberdade e do saudável desenvolvimento das crianças. Isto pode comprometer a vida social destes, sobretudo ao chegar a adolescência.

        Outro aspeto a salientar é o fenómeno complicado que se dá quando os pais tentam «substituir o insubstituível». Com efeito, alguns pais enveredam por uma doentia busca do filho perdido, procurando imediatamente uma criança que possa ocupar o lugar afetivo que ele deixou vazio. Alguns tentam uma nova gravidez, de modo a que uma criança lhes encha de alegria o lugar de uma tristeza que não suportam mais. Em certos casos, a criança que nasce chega a receber o mesmo nome próprio e apelidos que a criança falecida, vestindo as suas roupas e usando os seus objetos pessoais. Isto pode gerar alguns problemas de identidade da nova criança, que em tudo tentava assemelhar-se à criança falecida para agradar aos seus pais e assegurar o seu afeto. Assim, a criança viva não se sentirá amada por si mesma, mas por ser semelhante, ou fazer lembrar, outra criança.

        Alguns pais, impossibilitados de terem mais filhos naturais, procuram ter um filho adotivo para substituir a que morreu. Depressa, no entanto, e se a sua candidatura à adoção for adequadamente enquadrada pelos profissionais e pelas instituições, esta intenção é descoberta e são dissuadidos, ou impedidos de adotar. A adoção de um filho, a acontecer no futuro, deverá suceder quando este puder ser acolhido como pessoa única, pessoa singular, e até extremamente diferente daquela outra criança falecida. Ou seja, depois de concluído, saudavelmente, o seu processo de luto.

        Noutros casos, os pais tentam esta substituição com um dos filhos que já tinham quando perderam aquela criança. Trata-se de um comportamento de negação da perda. Armam uma espécie de «cenário do impossível», querendo fazer regressar simbolicamente o seu filho perdido. Podem começar por vestir a mesma roupa, ou roupas de estilo semelhante, a um irmão, ou irmã, do filho perdido; e fazer-lhe o mesmo penteado ou corte de cabelo. Mais alienador que isto, poderão obrigá-lo a um reforço psicológico constante das qualidades, ou características particulares, que tinha a criança morta, valorizando comportamentos e atitudes semelhantes às daquela. Este filho vivo tornar-se-á a imagem do filho morto, destituído da sua própria identidade e representando um papel que não é o dele: o luto passa a ser um Luto Patológico, pois começam a manifestar-se desvios obsessivos de fixação da imagem do filho morto.

        Se, de uma forma geral, a morte de uma criança é sempre um acontecimento abrupto e violento para os seus pais, mais o será quando se trata de uma morte por homicídio. Culturalmente, as crianças são consideradas «os mais inocentes entre os inocentes».




      • Os adultos têm geralmente o benefício da experiência, podendo perspetivar a perda com maior segurança. Esse não é o caso das crianças.

        Enquanto os adultos podem ter descoberto previamente várias maneiras de enfrentar a dor – tendo estabelecido estratégias para a ultrapassar, já que outros conseguiram fazê-lo – as crianças não possuem este referencial. São surpreendidas pela morte de um ente querido (tantas vezes, do seu próprio pai, ou da mãe) e não sabem o que é a morte, nem, por consequência, como lidar com ela.

        Sem dúvida, todas as crianças podem viver uma perda por morte em grande profundidade. Até os bebés sofrem as perdas, tendo consciência de que algo abrupto, inesperado e triste aconteceu, perturbando o ambiente que os rodeia. Facilmente, são atingidos pela carga emocional dos adultos em redor. Como não dispõem ainda de palavras para expressar a perturbação, fazem-no muitas vezes por comportamentos que evidenciam a sua aflição pela ausência de alguém a quem amavam e por quem eram amados (por exemplo, chorando, deixando de dormir, tendo diarreias, etc.).

        Em famílias que estão em luto, é frequente as crianças ficarem à margem das preocupações, ou serem vitimadas pela incapacidade emocional dos adultos para lidarem com a perda. O sofrimento das crianças duplica-se – por um lado, sofrem, como os adultos, a contundência da perda; por outro, sofrem a falta de cuidados destes, quer porque estão muito absorvidos nos seus próprios lutos, quer porque não sabem como ajudá-las.

        Porém, as crianças precisam de ser ajudadas, não devendo os adultos descurar as características do seu luto. Com este, as crianças aprendem uma das realidades mais claras da existência humana: que todos os seres humanos nascem, vivem e morrem. Aprender a aceitar a morte é, sem dúvida, uma das lições mais importantes que uma criança aprende na vida. Depois de uma primeira perda, de um primeiro luto, muitas outras perdas e muitos lutos terá que de viver na sua vida futura, tanto quanto mais longa esta vier a ser. É uma incontornável exigência da existência humana.


        O Ciclo de Luto das Crianças

        As crianças devem de ser consideradas num processo de luto, tanto ou mais que os adultos. Em muitos casos, ninguém repara sequer nos seus sentimentos aquando da perda de alguém da sua família, ou da sua amizade. Não poucas vezes, o seu silêncio esconde a sua imensa tristeza e forma um enorme abismo entre os seus sentimentos e a reação do resto de um grupo – geralmente a família – à morte de um ente amado.

        São particularmente graves os casos em que este é o seu próprio pai, ou a sua mãe, na medida em que as crianças investem quase toda a sua energia emocional nos pais. Fica-lhes, então, uma sensação de vazio, vivida de modo doloroso e impressivo.

        Este vazio é agravado pela ausência de linguagem, no caso das mais pequenas, ou pela existência de um vocabulário limitado, nas mais crescidas, no qual as poucas palavras são pobres para descrever a imensidão do seu luto. É que, com efeito, poucas palavras, ou um vocabulário limitado, nunca foram sinónimo de poucos ou limitados sentimentos. Nas crianças, a compreensão desta realidade humana torna-se fundamental para entender a amplitude da sua perda e a necessidade que têm de ser apoiadas para desenvolver um processo de luto saudável.

        É justamente nas palavras que reside parte do sucesso do apoio prestado a uma criança em luto. Frequentemente, ao silêncio da criança e à pouca atenção que os adultos lhe prestam numa situação de perda, junta-se todo um léxico estranho, para o qual a criança não está preparada. Assim, mais dolorosa se torna a sua situação de «marginal» ao processo de luto dos adultos, que ignoram a confusão que se instala na mente desta quanto a conceitos desconhecidos, como «morte», «passamento», «trânsito», «jacente», «defunto», «falecido», «sepultado», «finado», «cremação», «pêsames», «corpo», «alma», «jazigo», etc. Estes conceitos, que comportam em si dimensões e reflexos trágicos da própria vida humana, não raramente apelam a uma compreensão metafísica, religiosa ou espiritual desta, o que, para a criança, remete para um mundo abstrato por vezes muito difícil de compreender.

        Não raras vezes, a mente da criança tenta encontrar sozinha algumas soluções de compreensão destes conceitos, já que os adultos à sua volta não se preocuparam em explicar-lhas, ou não foram corajosos ou emocionalmente capazes de o fazer. A criança, ao ouvir (por exemplo, nas conversas entre adultos e durante a celebração de exéquias) ou ler (por exemplo, nos epitáfios de um cemitério) certas frases, como «Dorme em Deus»; «Que a sua alma descanse em paz»; «Aqui repousam os restos mortais de N.», «Que Deus Nosso Senhor perdoe os seus pecados»; «Era bom e justo, por isso Deus veio buscá-lo», «Nasceu para a vida eterna», «Aleluia!», etc., passa, então, a tentar compreender certas significações. Estas nem sempre serão tranquilizadoras, pois o que entenderá de cada palavra remeterá sempre para aquela perda – uma realidade sempre dramática, por mais que dela se digam frases que remetam para uma vida metafísica. A sua compreensão de realidades espirituais pode ser, aliás, muito limitada.

        Assim, a confusão da criança aumentará. Pode tentar compreender literalmente tais conceitos (por exemplo, pensar que se diz que a pessoa que morreu «dorme em paz», porque efetivamente está a dormir, etc.) ou confundi-los com outros conceitos (por exemplo, «trânsito» no sentido de transitar da vida terrena para a vida eterna por trânsito de transitar na estrada, com automóveis, etc.). Em alguns casos, esta compreensão literal dá lugar a grandes angústias, ao contrário de apaziguar a criança (por exemplo, a criança pensar que a pessoa que morreu está a dormir numa cama com tampa (a urna funerária) e que depois é enterrada durante o sono, sufocando sob a terra); bem como a confusão de conceitos lhe causa grande estranheza e inquietude (por exemplo, pensar que «Deus levou-o para o Céu» significa que literalmente esse ente desconhecido a que chamam Deus veio das nuvens e arrebatou aquele que tanta falta lhe fazia, o pai, a mãe, passando a imaginá-lo com frio, solto sem asas em pleno céu, sob ameaça de cair do próprio vento; ou conceber o céu como um espaço imenso cheio de chuva e de trovões, ou onde algum avião pode atropelá-lo, etc.).

        A imaginação da criança é fecunda e pode também conduzir a ideias pouco positivas, assumindo formas inusitadas e nem por isso felizes. Nos casos de atos homicidas, as crianças podem viver sob o medo constante, receando ser atacadas, ou que a família que lhes resta seja morta.

        As crianças vivem também um Ciclo do Luto, próprio e distinto daquele que geralmente vivem as pessoas adultas. Compreender este ciclo é compreender minimamente as características gerais, ou possíveis, do processo de luto de uma criança em particular. Só desta compreensão por parte dos adultos poderá criar-se um espaço emocional onde a criança possa fazer o seu luto abertamente.


        O Luto no desenvolvimento das crianças

        As crianças têm, tal como os adultos, maneiras muito próprias de expressar os sentimentos relativos à morte e perda de um ente amado. Mas, mais que nos adultos, a idade parece ser um fator a considerar. Assim, há que ter em conta que as crianças mais pequenas têm uma noção limitada da permanência da morte, embora a reconheçam como uma evidente separação de alguém a quem amam, podendo reagir a esta com uma profunda tristeza – com o início de um processo de luto.

        Entre os cinco e os oito anos, encontram-se num período de desenvolvimento caracterizado por certo carácter «mágico»: julgam que bastará formular um desejo para que, de uma forma ou de outra, ele se concretize. É frequente entenderem, pois, a morte como uma ausência temporária do ente amado e desejarem que este volte à vida. Neste sentido, tendem a interpretar determinadas palavras com um sentido mais próximo, ou mesmo imediato (por exemplo, julgarem que a «ressurreição eterna», tantas vezes falada na liturgia das exéquias cristãs, terá um efeito sobre a pessoa que morreu em breve tempo, dois dias, três, algumas semanas, até que volte tudo a ser como antes era, com o pai ou a mãe ressuscitados junto dela, etc.). Por outro lado, pode acontecer terem desejado a morte precisamente àquele ente amado, de forma inocente e inconsequente, ficando convencidas que foram as reais culpadas daquela morte, que, com efeito, veio a acontecer depois. Esta situação, possível e talvez mais frequente do que se supõe, pode trazer angústia e sentimentos de culpa. A criança pensa que desejou e, logo, aconteceu.

        As crianças com idades entre os oito e os dez anos ficam com frequência perturbadas com a morte, que olham com curiosidade. Fazem idealizações da morte (por exemplo, personificada pela imagem de uma mulher de aspeto sinistro, ou por uma espécie de fantasma); e atribuem-lhe uma função moral, julgando que a morte vem buscar quem, de alguma maneira, transgrediu «a ordem universal do Bem e do Mal», ou então veio buscar quem mais amavam, porque não estiveram sempre do lado do Bem (portando-se mal, mentindo, batendo noutra criança, por exemplo). Há aqui um sentimento de culpa, que nem sempre expressam e que, por isso, dificilmente é percecionado pelos adultos.

        A partir dos nove anos de idade, no entanto, as crianças tendem a entender a morte como uma realidade irreversível e podem expressar a sua perda e o seu luto em maior proximidade com a própria expressão dos adultos.


        O Ciclo do Luto tem três fases:

        • Fase da Crise;
        • Fase da Desorganização;
        • Fase da Organização.


        Tal como para os adultos, para as crianças, estas fases não são necessariamente rígidas. Cada criança, num contexto específico de perda, viverá o seu Ciclo do Luto com a extensão e a intensidade, com a sua demora e ritmo próprios, num dinamismo evolutivo único. É preciso, uma vez mais, considerar que o luto é um processo, não sendo um caminho linear, nem tendo um padrão fixo.


      • Nesta fase, a criança pode experimentar sensações de choque, torpor e recusa da realidade. O choque da perda tem manifestações tanto ao nível físico como psicológico. Entre as alterações físicas, registam-se geralmente o aumento da pulsação, da tensão muscular, da transpiração; secura das mucosas bucais, relaxamento das entranhas e da bexiga e mudanças respiratórias, sobretudo inspirações mais curtas e contínuos e profundos suspiros.

        Estas reações podem surgir em vagas de apenas alguns momentos ou duram várias horas, sentindo-se a criança enfraquecida e exausta, sendo qualquer tarefa do quotidiano um enorme esforço para prosseguir. A aceitação da perda custa-lhes muita energia, mas o seu cansaço não deve ser visto, à primeira vista, como ameaça – tratar-se-á unicamente de uma resposta natural à morte de quem amavam.

        Em certos casos, as crianças, pelo contrário, parecem não ter reação à notícia da perda. Recusando-a como verdade, como facto histórico, continuam a referir-se ao ente falecido como alguém que continua vivo, usando inclusivamente o Presente do Indicativo e a perguntar aos adultos quando é que ele volta, como se a morte fosse uma viagem com regresso. É com estranheza que os adultos vêm a sua apatia, ou indiferença, perante a perda, que é historicamente evidente. Em alguns casos, até, as crianças viram o cadáver durante as exéquias. O choque provoca esta reação de ausência, na verdade tão pouco fiel aos seus sentimentos, onde a angústia domina. A calma aparente de uma criança ao receber a notícia da morte de alguém é aliás uma reação frequente.

        As primeiras reações de uma criança à notícia da morte de um ente amado podem ser muito superficiais e, por isso, enganadoras. Porém, ocultam geralmente uma perturbação atordoante, de tal forma que chega à apatia. Constata, no entanto, que a sua vida mudou para sempre. Em parte, as suas reações são depois desencadeadas pelas expressivas reações dos adultos à sua volta. De qualquer modo, estas reacções das crianças tendem a focar-se sobretudo em aspetos práticos da sua vida (por exemplo, perguntando, ao saber que a sua mãe foi morta:
        «Então e agora quem é que me leva todos os dias à escola?»), parecendo que não perspetivam a longo prazo uma perda dramaticamente irremediável.

        Trata-se também de congregar toda a sua atenção num centro de interesse imediato, desviando sentimentos insuportáveis de angústia e de medo. Não é raro haver crianças que, numa circunstância de tanta dor, e nos dias que se seguem à receção da notícia da morte, se entreguem a atividades lúdicas e desportivas, como se o gasto de energia física pudesse ocupar a sua mente e distanciá-la de uma realidade tão dura.

        Nos dias seguintes à receção da notícia da morte, as crianças tendem a agir mecanicamente. Apesar da falta de energia, não deixam de sorrir sem mostrar os seus sentimentos, ou de parecerem alheadas da realidade do luto familiar. Por vezes, esta linearidade de comportamento é interrompida por explosões de fúria, súbitas e fortes, e crises de choro incontrolável. Esta introspeção, apenas quebrada por esporádicas (e por vezes inesperadas) avalanches de lágrimas, pode durar horas, ou semanas.

        À medida que a perda do ente amado começa a ser assumida, o torpor alterna com a angústia, que começa a ser cada vez mais evidente aos olhos dos adultos. Podem surgir, então, sintomas físicos como o eczema nervoso e a enurese, ou, se já se verificavam, agravam-se.

        Em termos de comportamento, os rapazes têm tendência, nesta Fase da Crise, para se tornarem hiperativos e agressivos, ao passo que as raparigas tendem a apegar-se mais aos adultos e a mostrarem-se menos expansivas.

        No desenvolvimento infantil, é por volta dos cinco ou seis anos de idade que as crianças atingem o chamado «pico de intenso medo da morte». Se a perda de um ente amado coincide com esta etapa, o processo de luto será acentuado pelo medo que a criança sente de ser ela a próxima a morrer. Não é raro haver crianças que, na plena vivência de um processo de luto, acreditem que a sua vez de morrer está próxima, como se a morte acontecesse de forma linear, como uma espécie de lista de vivos a abater, previamente definida. É a ideia de uma funesta multiplicação do efeito que as crianças temem. No caso de uma morte causada por um homicídio, este medo poderá ser aterrador, pois temem que venham também matá-las.

        A sua insegurança emocional é grande, manifestando-se em comportamentos defensivos evidentes (por exemplo, estar a vigiar todas as portas, verificar se estão trancadas por dentro, chegando mesmo a barricá-las com móveis; dormir vestido para fugir no caso de aparecer um assassino; dormir com uma arma branca sob a almofada, etc.), mas também em comportamentos de dependência dos adultos, nos quais procuram proteção imediata (por exemplo, buscarem colo constantemente, abraços, quererem estar sempre de mão dada; ou dormir na cama dos pais, etc.).

        A constante necessidade da companhia do familiar mais chegado (por exemplo, a mãe, ou o pai) estará não só relacionada com esta dependência, como também com o medo de sofrer uma nova perda – desta vez, de mais um ente amado. Acreditam que, se estiverem junto dele, talvez não aconteça de novo a morte. Nesta Fase, as crianças sofrem geralmente de grandes insónias. O seu corpo está em estado de alerta, preparado para reagir imediatamente a determinados perigos (o de aparecer um homicida, por exemplo).


      • Nesta Fase, as crianças manifestam estar num período bastante agudo do seu processo de luto. Ocorre quase sempre uns dias depois da morte e das exéquias já cumpridas. Em alguns casos, pode, no entanto, surgir umas semanas depois, na medida em que tiver demorado a Fase da Crise.

        Neste período, facilmente a criança busca acusar alguém da ocorrência da morte do ente amado: um adulto com quem convive (por exemplo, o pai, uma tia, etc.). Mesmo havendo já um autor conhecido ou um suspeito do homicídio, a criança poderá acusar um outro adulto que, totalmente inocente daquele crime, para ela poderá servir como recetor de toda a raiva que lhe emerge agora.

        A revolta é uma reação bastante frequente numa criança em processo de luto, sobretudo nesta segunda fase do Ciclo do Luto. Esta revolta pode ocorrer contra esse adulto que serve de objeto de toda a sua raiva, ou desfocalizar-se genericamente, sendo contra todos os adultos ou contra o mundo inteiro, ou, numa direção ainda mais abstrata, contra Deus, que não impediu a morte e o sofrimento.

        A revolta, no entanto, é tida como uma resposta natural a qualquer tipo de perda, uma reação construtiva e ativa. Será, pelo menos, um sinal de energia, um novo impulso de sobrevivência emocional. É preciso ter em conta que muitas crianças manifestam a sua angústia, a sua impotência diante da morte, não com palavras, mas com gestos. Num repente, a criança pode tornar-se insuportável para os adultos à sua volta, também eles a viver o seu próprio luto.

        Nesta fase, pode haver uma recusa e uma descrença na morte do ente amado. Em sonhos, podem sentir a sua presença, superando, ou «esquecendo», a sua morte. A fantasia auxilia-as como única maneira de aliviar a dor da perda. Serve também de ganho de tempo a um período trágico das suas vidas, como que uma «trégua».

        A recusa pode ser problemática para os adultos, que, por vezes, não entendem que esta é apenas um escape; e, além disso, um testemunho da capacidade criativa das crianças, que são capazes recriar um mundo perdido, do qual constam ainda os fortes laços afetivos que as uniam ao ente amado. Desejar tê-lo de volta, pensar nisso e sonhar com isso, é, para as crianças, um espaço reconfortante e apaziguador. Afinal, dentro delas, num qualquer lugar da sua memória, aquela pessoa (tantas vezes aquela que mais amavam) continuará viva.

        As brincadeiras com outras crianças podem sofrer alterações. As crianças em luto podem ser incapazes de brincar com as outras crianças, preferindo atividades solitárias. A presença de um adulto poderá ajudar no seu ajustamento às brincadeiras, mas, num processo de luto, nem sempre esta presença – que deve ser atenta e delicada – é garantida. Afinal, os adultos que a rodeiam estão, geralmente, a viver o seu próprio luto e já é para eles um grande esforço cuidarem das mais básicas necessidades da criança (por exemplo, dar banho, vestir, alimentar, levar à escola, etc.), restando-lhes pouca energia para brincar, ou mesmo conversar, com elas.

        Nesta fase, pode ocorrer uma regressão, provocada por uma excessiva ansiedade. A enurese noturna pode ser um dos sinais deste «regresso» a comportamentos que já tinha deixado de ter. Alguns adultos não entendem este acontecimento no contexto do processo de luto, censurando, humilhando ou mesmo castigando a criança. Estes comportamentos vêm prejudicá-la, mais que ajudá-la. Agravam, em consequência, a dificuldade que a criança está a viver no seu processo de luto. Também as crianças que ainda usam fralda podem demorar mais tempo a deixar de usar.

        A enurese pode ser um problema muito sério para uma criança. Frequentemente, precipita-a numa sensação de estar à margem das outras crianças, tentando que tal realidade seja um segredo para que estas não a discriminem. Este «segredo», mesmo que guardado por uma família compreensiva, torna-se difícil de manter se a criança cheira a urina com frequência ou se alguma outra criança (por exemplo, na escola, ou mesmo dentro da família alargada) o descobre. As crianças podem ser cruéis para os seus pares: facilmente aquela criança, cujo comportamento não compreendem, se tornará o alvo preferido, recorrente e atormentado das suas investidas, humilhando-a e até agredindo-a fisicamente.

        Em alguns casos, a criança em processo de luto passa mesmo a sofrer de enurese diurna. Esta situação nem sempre desperta a compreensão dos outros, sofrendo a criança a pior das humilhações: ser vista com as suas roupas molhadas, ou a sua urina ser vista a correr pelas pernas. Estes episódios provocam maior ansiedade.

        Nesta fase, a criança pode ter problemas de alimentação (por exemplo, comer menos, ou comer excessivamente); roer as unhas; ter perturbações do sono e pesadelos; sofrer um aumento de reações alérgicas (por exemplo, o eczema e a asma). Nas crianças mais pequenas, têm sido descritos comportamentos como chuchar no dedo, embalar-se de um lado para o outro, manifestar desejo de alimentos macios, manifestar desejo de serem abraçadas: tratar-se-á de uma recordação inconsciente de um tempo em que viviam o conforto, quando não tinham conhecido a dor da perda do ente amado.

        O processo de luto das crianças implica, tal como o dos adultos, uma saudade intensa. A imaginação de uma criança pode recompensá-la numa perda, inventando cenários onde o passado adquire contornos fabulosos. É frequente a criança inventar as suas próprias estórias, espécie de «versão alternativa» da morte daquele ente amado. São geralmente uma mistura do carácter mítico dos contos infantis que conhece com alguns elementos biográficos de que se recorda, ou que ouve contar aos adultos sobre o ente amado. Pode ser saudável esta nova elaboração da realidade, quando as crianças controlam, simbolicamente, o curso da vida, ao vencerem a morte e trazerem de volta o seu ente amado. Não parece haver, aqui, o desenvolvimento de um Luto Patológico, desde que haja à sua volta adultos que saibam aproveitar estas ocasiões para falar com elas com afeto e sabedoria suficientes para explorar sentimentos e emoções e, assim, vencerem juntos, pelos símbolos e pelas palavras, o sofrimento do processo de luto. O papel dos pais, dos outros familiares, dos amigos, dos profissionais, em especial dos educadores e professores, é, pois, fundamental.

        A saudade imprime nas crianças, tal como nos adultos, um gosto por conservar recordações, objetos e locais relativos ao ente amado, uma atitude que numas culturas é incentivada e até exacerbada e, noutras, considerada mórbida e doentia. Independentemente das tendências culturais, a saudade pode ser redimensionada numa «positividade da memória». Isto é, pode adquirir contornos sobretudo positivos, gratificantes: de um «bom recordar», ou de um «bem lembrar» o ente amado. Pode catalisar, assim, a memória que se tem deste para a construção de uma aceitação pacífica da sua perda e para a continuação de uma vida psicologicamente saudável. Também as crianças podem descobrir que, sendo a perda irreversível, lhes ficou, porém, a memória dos bons tempos (e, em muitos casos, o exemplo de bom carácter deixado pelo ente amado), sobre a qual podem perspetivar um futuro com esperança.

        A aceitação do carácter definitivo da morte é, além de uma aproximação da próxima fase do Ciclo do Luto, uma importante aprendizagem da vida humana. A uma criança, como a um adulto, poderá ser útil saber que a morte existe, que na vida humana podem perder-se entes amados. Embora duramente, ficará mais preparada para enfrentar novamente tal experiência num futuro que é comum a todos os seres humanos.


      • Esta é a fase da aceitação. Descrita como um conflito entre a necessidade de um «deixar-se arrastar pelos dias», numa tristeza instalada e quotidiana, e «o desejo de manter-se firme e combativo», esta tensão entre a memória de um passado conhecido e a perspetiva de um futuro desconhecido é o eixo determinante para a resolução do processo de luto e o encerramento do Ciclo.

        A aceitação é o ponto mais importante do processo de luto de uma criança. É nele que se ajusta à realidade da perda, com êxito. Não significará isto que alguma vez venha a esquecer o ente amado ou a deixar a sentir saudade. Todos os sentimentos da criança serão, agora, transfigurados em recordação – ou seja, em memória gratificante de alguém a quem se amou, o que não será sinónimo de traição. Sente que deixar de acreditar que o ente amado regressará, não significa atraiçoá-lo.

        No entanto, podem surgir alguns sinais de desgaste físico, com constipações, dores de garganta, indisposições do estômago, fadiga geral. O sistema imunitário torna-se mais vulnerável.

        Pode também continuar um medo constante da morte. Ao saber que a morte faz parte da vida, que acontece a todos os seres vivos, incluindo os humanos, que pode ocorrer de maneiras variadas, que é definitiva, a criança passa a saber que esta pode acontecer a si própria e aos que a rodeiam. Muitas crianças continuam a recear que algum familiar morra também, fazendo-a reviver o sofrimento causado pela perda daquele outro ente amado.

        Há também um aspeto importante no luto das crianças: os sonhos. Os sonhos podem ser um dos acontecimentos mais angustiantes da vida de uma criança. Por vezes, a tendência das famílias é guardar certo silêncio, tratando os sonhos como um assunto essencialmente privado, pessoal. Também é comum que não procurem qualquer sentido, ou significado, para os sonhos em determinados momentos, nem procurem relacioná-los com alguns acontecimentos da vida. É, pois, bastante frequente que as crianças comunguem desta atitude das suas próprias famílias e, tal como os adultos, não falem dos seus próprios sonhos, considerando-os algo de «secreto».

        Uma criança em processo de luto pode vir a nunca relatar os conteúdos dos seus sonhos. Estes passam, assim, a fazer parte da sua solidão e da sua angústia. Os sonhos de uma criança, nestas circunstâncias, refletem geralmente os sentimentos negativos que a assolam depois da morte do ente amado. Maior será a sua dificuldade no processo de luto.

        No entanto, os sonhos podem ser, em muitos casos, uma descarga de tensões emocionais. Proporcionam à criança a possibilidade de aliviar, momentânea ou definitivamente, a ansiedade que sente, ou os conflitos provocados pela violência dos seus sentimentos negativos. Certos sentimentos associados à destruição e ao desejo de vingança, que podem estar muito presentes num processo de luto derivado da morte provocada de um ente amado, podem encontrar nos sonhos a necessária vazão. A criança pode, no entanto, viver angustiada por causa da recordação dos conteúdos desses sonhos, podendo ser importante que tenha o apoio dos seus familiares, dos seus educadores e/ou de outros profissionais para interpretar e gerir estes conteúdos.


    • O processo de luto, como tem vindo a ser entendido, é um processo pessoal. Mas a morte de alguém provoca quase sempre a existência simultânea de diversos processos, pois a pessoa que morreu teria diferentes relações: amorosas, familiares, de amizade, de simples convívio diário no local de trabalho. Um processo de luto nunca decorre, de uma forma geral, sozinho ou afastado dos outros processos.

      Os processos de luto são, no entanto, processos dinâmicos.

      Ou seja, de uns processos de luto para os outros, há permuta, reciprocidade, ambiguidade, rivalidade, e uma grande complexidade de sentimentos. Isto pode acontecer, em especial, quando a morte ocorreu no seio de uma família e várias pessoas entram em luto ao mesmo tempo por causa dessa mesma perda. Será, aliás, uma situação bastante frequente, pois, geralmente, a pessoa que morreu tinha família e, se não coabitava, mantinha uma relação muito estreita, unida pelos laços de parentesco e pelos laços afetivos decorrentes de uma história pessoal de muitos anos, marcada pela vinculação e pela confiança mútua.

      A família, por isso, sente-se muito atingida pela perda. Esta representa um abalo na sua estabilidade, resultante do sofrimento emocional profundo dos seus membros. Em alguns casos, este é tão intenso que a família não resiste e desagrega-se, havendo corte de relações e divórcios.


      Diversos fatores podem estar na origem desta degradação da estrutura familiar:

      • A idade de cada um dos membros da família, incluindo o que morreu. Geralmente, aceita-se mais facilmente a morte de um familiar já idoso que de um familiar ainda jovem (por exemplo, aceita-se melhor a morte de um avô de oitenta anos, que de um irmão de vinte e cinco).


      A morte de pessoas de idade avançada é considerada uma «morte natural», pois, de certo modo, «viveram até ao limite», ou «viveram muito». A morte de um familiar idoso é mais assimilável pela estrutura da própria família: esta perspetiva-a como algo inevitável e que acontece para «dar lugar a outros», ou para que outras gerações perpetuem a família no tempo. Já a morte de um elemento durante a infância, na juventude ou na vida adulta (mas em idade considerada socialmente «ativa») é vista como uma rutura nesta continuidade, além de ser considerada «antinatural», uma vez que se crê (e deseja) que as crianças e os jovens devem viver até serem idosos.

      Contam também as idades dos vários elementos da família. Os mais novos, como as crianças e os adolescentes, tenderão a ter dificuldades de compreensão da morte de um familiar, mesmo que este fosse muito idoso. Os adultos podem «projetar-se» na morte de um familiar da mesma idade, ou adulto, vislumbrando nela a imagem da que poderá, um dia, vir a ser a sua própria morte;

      • O papel que desempenhava a pessoa que morreu na hierarquia familiar. É importante o posicionamento que tinha na própria estrutura familiar, nomeadamente quanto ao parentesco. De um modo geral, os filhos aceitam com muita dificuldade a morte dos seus pais, em especial se ainda forem crianças e/ou adolescentes, ou estejam a viver em sua casa. Ao faltar o pai ou a mãe, ou ambos, a família, tal como estava «classicamente» formada (pai, mãe e filhos), sofre uma fragmentação. Os pais que perderam um filho, ou filhos, também terão dificuldade em manter a família a salvo da desintegração. Muitos perdem o sentido da vida familiar e conjugal, sobretudo se não houver outros filhos e se havia problemas de relacionamento anteriores ao luto. A separação ou o divórcio são frequentes nestes casos;
      • O grau de poder que exercia a pessoa que morreu. Neste aspeto, é muito importante considerar os níveis de dependência que havia em relação à pessoa que morreu por parte dos outros familiares, designadamente ao nível da tomada de decisões, da gestão da vida familiar e da providência económica. Assim, estes perdem uma parte considerável da sua organização familiar, ou mesmo das condições básicas para continuar uma coabitação. Tanto pode ser determinante a perda daqueles que garantiam o sustento material (por exemplo, o pai e a mãe, que trabalhavam e pagavam a renda, as despesas domésticas e a educação de dois filhos universitários); como aqueles que tinham capacidade de governar uma casa com eficiência, providenciando a satisfação de necessidades básicas (por exemplo, a mãe que era doméstica e garantia sozinha a alimentação e a higiene diárias). São também importantes os modos como esse poder era exercido pela pessoa que morreu: se benevolente, se autoritário; se com a sua autoridade reconhecida pelos outros ou não. Perdida a pessoa, perderam-se os poderes que ela exercia num campo próprio (e certas famílias têm uma definição muito clara de papéis, sobretudo as mais conservadoras). Se estes poderes não são agora exercidos, a estrutura familiar não pode ser a mesma. Em alguns casos, a inexistência de substitutos no uso do poder, as transferências de poder para outros elementos ou a usurpação do poder por estes, acabam por significar sérias ruturas na estrutura da família;
      • O seu envolvimento afetivo com os restantes membros da família. Por fim, este será um dos aspetos mais determinantes. A qualidade de uma família estabelece-se, sobretudo, pelos laços afetivos que une os seus diferentes membros, e não tanto os laços de parentesco.


      Numa família em que o envolvimento afetivo é grande e expressivo, a morte de um dos seus membros é sempre percecionada como uma perda significativa, seja qual for a sua idade, o papel que desempenhava ou o poder que exercia na hierarquia familiar. Mais que a perda de um parente, é uma perda afetiva. Se a pessoa que morreu era especialmente expressiva nas manifestações de afeto, mais a sua ausência será notada nas dinâmicas familiares. A estrutura familiar ressente-se necessariamente, pois com a pessoa desapareceu um dos eixos estruturais, que suportava, dinamizava e revitalizava as relações com afeto. Isto acontece sobretudo na perda de pessoas que eram especialmente expansivas, compreensivas e gregárias no seio da sua família.

      A maneira como são geridos os vários processos de luto individuais numa mesma família decorre, em parte, da estrutura e do funcionamento dessa família. A ajuda mútua será uma ótima via de favorecer o desenvolvimento de cada um dos processos, se a família já estava capacitada para a dar. Se a sua vivência era afetuosa, dialogal, respeitadora, emocionalmente estável, poderá reunir condições para reagir em conjunto a um acontecimento tão traumático como a morte de um dos seus membros.

      Se, pelo contrário, a família era um lugar de constantes tensões e de conflitos (antes da ocorrência da morte), pode ver agravados os seus problemas. Os seus membros, ao invés de estenderem ajuda uns aos outros, podem viver situações de rutura, sobretudo na Fase da Desorganização, quando, passado o imediatismo da receção da notícia da morte e todas as reações próprias da Fase da Crise (como o choque e o torpor, por exemplo), se defrontam com períodos mais amplos, cheios de dificuldades. As diferenças na maneira como cada um vive o seu próprio processo de luto tenderão a ficar acentuadas e a gerar discordâncias, discussões e separações.

      As famílias, enquanto comunidades humanas básicas, são muito diversas na sua maneira de ser e de estar. Cada família corresponde a um perfil único. Para além da singularidade de cada pessoa que a integra, há uma série mais ou menos extensa de fatores que a tornam complexa e diferente: o número e as idades dos membros que a compõem; a sua história passada; as suas condições habitacionais e sociais; a religião que professam; a sua diferenciação académica; os seus gostos culturais; o seu nível socioeconómico, entre outros.

      Apesar das diferenças próprias de cada uma, é possível classificar as semelhanças que têm entre si quanto à capacidade de aceitar, compreender e gerir os sentimentos dos seus membros. Não esgotando outras possíveis classificações, podem ser divididas em dois grandes grupos, extremos na sua maneira de ser e de estar;

      • As famílias que não expressam abertamente os seus sentimentos. Nestas famílias, não costuma haver tolerância para os seus membros no que diz respeito às «coisas invisíveis», isto é, aos sentimentos (que não são físicos, ou materiais). Frequentemente, estas famílias tentam focar-se em meros aspetos «palpáveis» de um problema, ignorando, ou desprezando, aqueles que não se veem (por exemplo, se um filho disser que está deprimido, a tendência é para dizer que «está cansado após um ano de trabalho» ou que «precisa de férias». Não querem entender que o problema é a sua saúde mental e não um simples desgaste profissional).


      Para estas famílias, «o que não se vê não existe». Isto é: estar triste, ou sentir uma angústia frequente, poderão ser coisas irreais, se não estiverem relacionadas com algo imediato e concreto (por exemplo, ser reprovado num exame; ou o seu clube ter perdido um jogo de futebol). Também costumam ter um pragmatismo algo esquivo, quando se referem aos sentimentos negativos como «algo que já passou», não dando importância àquilo que para eles não é linear, ou de leitura simples. Os sentimentos, que são, em parte, realidades abstratas, chocam com a sua compreensão do mundo.

      Esta limitação verifica-se no seu quotidiano familiar. Os seus membros não partilham as suas perceções ou opiniões sobre determinados aspetos menos «palpáveis» da vida. Simplesmente, evitam comunicar conteúdos «não visíveis»: ou seja, evitam expressar sentimentos. Isto tem os seus custos, quando algum deles fica emocionalmente perturbado. Em vez de o expressar, a sua tendência será a de reprimir-se, evitando que os outros se apercebam, ou isolando-se destes. O afastamento é a maneira mais simples de evitar a gestão de uma circunstância dolorosa.

      Quando morre algum dos seus membros, estas famílias não dialogam sobre os sentimentos e emoções negativas que estão a viver. Frequentemente, a sua própria maneira de ser e de estar impõe um silêncio geral sobre a perda e até sobre a memória da pessoa que morreu. Geram uma espécie de tabu sobre a sua morte e parece, por vezes, que a pessoa que morreu, afinal, nunca chegou a existir. Qualquer referência à pessoa é apagada da vida quotidiana familiar, desde nunca falar dela a retirar, ou destruir, tudo o que lhe pertencia (por exemplo, fotografias, roupas, escritos, objetos pessoais). São evitadas as conversas que possam levar à referência por alguém, mesmo pessoas amigas ou conhecidas, à morte daquele membro, à sua personalidade, enfim, ao seu percurso de vida pessoal. Nem sequer o choro é tolerado.

      Estas famílias chegam a viver um Luto Patológico, pois recusam-se a assumir a perda do seu ente amado. A sua estrutura não integra a ausência deste, parecendo que nem sequer existiu nela. Assim, a estrutura familiar mantém-se aparentemente a mesma, permanecendo igual o papel de cada membro. Ao fazer «desaparecer» o ente amado, estas famílias estão a dificultar os processos de luto pessoal de cada um dos seus membros. Estes vivem uma incapacidade de elaborarem, de forma normal, os próprios processos. Quando o membro que detém maior poder na estrutura (geralmente, o que maior censura impõe sobre as referências ao ente amado que se perdeu) deixa de exercer tanto poder, ou mesmo quando deixa de o fazer, estas famílias correm o risco de se desmoronarem, ou ficam muito debilitadas;

      • As famílias que expressam abertamente os seus sentimentos. Estas famílias têm por hábito integrar no seu quotidiano a partilha de sentimentos e emoções. Os seus membros, dos adultos às crianças, sentem que podem dialogar sobre o que vão sentindo, desde as alegrias até às tristezas. A morte de algum membro, apesar de ser muito dolorosa, tende a não provocar a degradação da estrutura familiar, que se mantém coesa graças à partilha sincera e franca do que sentem os seus membros. Os membros destas famílias ajudam-se mutuamente na perda, que aceitam como uma realidade à qual devem ajustar-se, promovendo as adaptações necessárias.


      Os processos de luto de cada um dos seus membros são, assim, facilitados, podendo ser desenvolvidos de forma saudável, até porque cada um detém alguma experiência de gestão de sentimentos e de emoções, que reconhece e analisa com a prática de o fazer habitualmente, em família. Estas famílias estão, pois, capacitadas para serem o principal apoio da pessoa em luto.

      Se uma família expressa abertamente os seus sentimentos, se aprende a gerir tensões e conflitos, e a lidar com os problemas de modo ágil e afetuoso, tenderá a unir-se na perda de um dos seus membros. Enfrentará, assim, aquele difícil acontecimento «em bloco», tomando-se forte pela união de cada um dos seus membros aos restantes. Os laços de solidariedade serão uma constante diária, permitindo, em parte, que o abalo sofrido pela própria estrutura familiar seja progressivamente reparado. Nestas famílias, o papel desempenhado pela pessoa que morreu poderá ser desempenhado por outro membro, que procurará responder a novos desafios.
      Os processos de luto de cada membro, por sua vez, serão facilitados pela reação conjunta.

      Cada membro saberá, assim, que não se encontra sozinho na sua perda. Os membros mais determinados tenderão a ajudar os membros mais débeis, partilhando a evolução feita nos processos. Estas famílias, geralmente, acolhem bem a ajuda de amigos e de profissionais e até a procuram, interessados em receber o seu apoio.

      Por fim, numa mesma família pode haver membros que têm dificuldade em expressar sentimentos, e que exercem, até, alguma censura sobre os outros membros (por exemplo, um pai incapaz de lidar com a tristeza dos seus filhos, tentando, a todo o momento, que estes não a expressem, como se, assim, a fizesse desaparecer); e outros membros que, pelo contrário, o fazem com facilidade (por exemplo, uma mãe que procura, na ausência do pai, ajudar os filhos, conversando e compreendendo a sua tristeza). Estas famílias têm, ainda assim, um potencial de organização interna para fazer frente ao luto em conjunto, sobretudo se os seus membros com maior facilidade de expressão de sentimentos procurarem ajudar os outros a fazer o mesmo.

      Outro aspeto importante para as famílias em luto pode ser a da partilha dos bens patrimoniais do ente amado ou a distribuição do valor obtido por indemnização. Os bens de um falecido são geralmente herdados pelos seus familiares, através de uma escritura de habilitação de herdeiros; e/ou em cumprimento das disposições testamentárias. Os herdeiros fazem, então, uma partilha dos bens móveis e imóveis, depois de chegarem a vários acordos entre si. Frequentemente, o inventário dos bens não é uma tarefa fácil e os acordos são muito difíceis, originando grandes tensões e até ruturas na família. A indemnização recebida pela morte do ente amado, seja privada ou concedida pelo Estado, pode originar também desentendimentos dentro da família, cujos membros entram em disputa pelo valor, mesmo quando há critérios definidos pelas entidades que a atribuem quanto aos graus de parentesco daqueles em relação à pessoa falecida. Em alguns casos, começa a verificar-se um crescendo de conflitos, engrossado por incompatibilidades relacionais anteriores. Na dor da perda, a fragmentação familiar é uma nova dor: perdem-se os laços, a convivência, a confiança e o apoio de familiares anteriormente próximos. Algumas pessoas lamentam-se, sobretudo, do egoísmo dos seus parentes, bem como da falta de respeito pela memória do ente amado comum. O processo de luto é, assim, dificultado.


    • São de grande importância os amigos de uma pessoa em luto. Esta espera deles tudo aquilo que se concebe geralmente da amizade – companhia, presença, afeto e fidelidade em todos os momentos, até no momento trágico da morte. Não é raro encontrar pessoas em luto que esperam mais dos seus amigos que da sua própria família. À família percecionam-na como previamente vinculada a si – o que implicará acreditar que o seu apoio é incondicional e garantido. Dos amigos esperam a confirmação de um vínculo estabelecido na sua própria história pessoal.

      A pessoa em luto espera, por isso, e de modo muito especial, que se aproximem aquelas pessoas que, não sendo seus familiares, consigo partilharam tantos momentos da vida, geralmente plenos de bem-estar emocional, alegria e festa. Espera, de modo geral, a fortaleza emocional que não tem nos momentos mais dramáticos, a presença, o conforto sentido numa proximidade física (por exemplo, num abraço grande e emotivo dado por um amigo), palavras de consolação ou mesmo o silêncio compassivo que se faz diante de uma tragédia, quando todas as palavras parecem ser poucas, ou pobres.

      Na Fase da Crise, quando se recebe a notícia da morte, geralmente todos os seus amigos, mesmo os menos íntimos e até os amigos dos amigos, a visitam ou contactam para manifestar a sua solidariedade, assumindo um apoio incondicional (por exemplo, com expressões de grande compromisso, como «Conta comigo para o que precisares»; «Os amigos são para os bons e para os maus momentos»). Em muitos casos, este apoio é bem recebido e está sobretudo presente nos momentos mais críticos, como são os primeiros dias depois da receção da notícia da morte ou a celebração das exéquias. Em muitos casos, se a pessoa em luto contactar um desses amigos, sentindo-se só e pedindo ajuda, obterá, sem hesitação, o seu apoio.

      Com efeito, os amigos são-lhe fundamentais, sobretudo em momentos mais penosos do processo de luto. Além de assegurarem que a sua solidão não é total – motivada em tantos casos pela perda de um ente amado com quem coabitava (por exemplo, pai, mãe, filho, marido), podem ajudar na expressão dos sentimentos, acolhendo as confidências e lamentos; e na racionalização das emoções, quando estas se encontram no limiar do descontrolo, ou fazem sofrer a pessoa na configuração de uma visão pessimista, derrotista, da sua vida e do seu futuro: quando sente que «nada mais faz sentido», ou mesmo que «não valerá a pena viver mais».

      Tais momentos mais penosos não se confinam unicamente à Fase da Crise. Estendem-se pelo processo de luto na sua continuidade. Os amigos continuam a ser fundamentais, mas a verdade é que, em muitos casos, nem todos prosseguem a sua presença no processo, ausentando-se da vida da pessoa em luto.

      Em muitos processos de luto, verifica-se que, por múltiplas razões, a maioria dos amigos que, na Fase da Crise, estavam disponíveis para prestar apoio deixam de o estar. Na Fase da Desorganização, isto torna-se evidente – a sua ausência pesa e agrava o processo de luto, porque, agregada à perda do ente amado, há também a perda de amigos.

      Na Fase da Organização, alguns desses antigos amigos já nem são considerados amigos e, num processo de luto saudável, outros amigos vão surgindo. Os novos amigos serão, aliás, sinal de que o processo de luto está a desenvolver-se adequadamente e, organizando uma nova vida, a pessoa em luto foi capaz de conquistar, ou aceitar, novas pessoas na sua rede relacional. Estes novos amigos farão parte de uma necessária renovação da vida, com a qual a pessoa assume a adaptação à realidade da perda, ultrapassando as suas mais avassaladoras consequências e perspetivando a felicidade como horizonte possível.

      A perda de amigos durante o processo de luto é uma das mais difíceis constatações para uma pessoa que está em sofrimento pela morte – que é a maior das perdas – de um ente amado. Infelizmente é uma conclusão a que chegam, geralmente na Fase da Desorganização. À perda do ente amado, somam-se as perdas daqueles que deixaram de estar próximos. Algumas pessoas chegam mesmo à conclusão de que, afinal, não tinham tantos amigos quantos julgavam ter, aplicando à situação alguns provérbios, que na sua sabedoria generalista confirmam que essa conclusão poderá estar mesmo certa (por exemplo, «Nos maus momentos é que se veem os amigos»; ou «Mais vale poucos mas bons»; «Antes só que mal acompanhado», etc.»).

      Na ausência dos amigos, sondam-se as razões desta. A pessoa em luto percebe, em muitos casos, que foi ela própria a afastar-se durante o processo, quer porque estava sob o poder das suas fortes emoções, de uma grande tristeza, de uma tendência para o silêncio e para o isolamento; quer porque os amigos seguiram a sua vida quotidiana, plena de afazeres e de obrigações profissionais e familiares, deixando de estar tão presentes.

      Em alguns casos, o afastamento da pessoa em luto dos seus próprios amigos foi consciente e defensivo. Pode torna-se muito angustiante reunir, ou mesmo contactar por telefone, com amigos que sejam uma permanente lembrança de um mundo que para ela acabou com a perda do ente amado (por exemplo, Alexandra N. e seu marido, João N., eram amigos de Ana L. e seu marido, Mário L., com quem costumavam estar muitas vezes e passar férias juntos. Depois do homicídio de João N., durante um assalto a um supermercado, Alexandra N. preferiu afastar-se progressivamente dos amigos – não tinha consigo o marido falecido, sentindo-se só. Também lhe era extremamente penoso olhar para aquele casal, com quem tinham passado tão bons momentos).

      Outra situação frequente é o progressivo, ou imediato, afastamento dos pais em luto dos círculos de convívio familiar e/ou social outrora habituais. Tendo perdido os seus filhos, afastam-se de amigos seus que têm filhos. Estas crianças ou adolescentes, ao continuarem a crescer aos seus olhos, fazem-nos recordar-se constantemente daquele malogrado filho ou filha, perdido/perdida para sempre, que, por isso, não teve oportunidade de crescer como eles (por exemplo, Manuel D. e Matilde D. deixaram de visitar e até de telefonar a Joaquim F. e a Susana F., um casal com dois filhos pequenos, depois de terem assassinado o seu filho Hugo N., que era da mesma idade que aquelas crianças, com quem costumava brincar sempre que os seus pais conviviam). As crianças vivas, alegres, dinâmicas e desenvoltas, podem ser para os pais em luto a imagem incessante dos seus filhos mortos, olhando-as num ambíguo misto de ternura e de profunda angústia.

      Para uma pessoa em luto, paradoxalmente, a tranquilidade e a felicidade dos seus amigos pode ser um peso permanente, a memória viva de que, para elas, toda a tranquilidade e felicidade não passam, agora, de uma recordação pungente. Isto não significará, no entanto, que desejam aos seus amigos a mesma infelicidade, o fim dessa sua vida livre da perda e do luto, desconhecendo o que é viver-se aprisionado nestas realidades.

      Confusas, desiludidas com a ambiguidade das suas emoções, receando que os outros se apercebam da angústia que um simples episódio da vida familiar alheia pode provocar no seu interior, preferem prescindir da sua companhia, não obstante o afeto que continuam a ter por eles, não obstante a alegria que continuam a sentir ao reencontrá-los, não obstante a saudade que sentem dos «bons velhos tempos».

      Por seu lado, estes amigos, não entendendo a reação de constante desprendimento do/a amigo/a enlutado/a, e depois de várias tentativas de aproximação, acabam por desistir, por vezes magoados e até zangados. O esforço que a pessoa em luto faz muitas vezes para parecer bem disposta e tranquila sempre que os encontra, numa espécie de encenação do que não possui (a felicidade, de novo), também não é favorável. Imaginando o/a seu/sua amigo/a já recuperado/a da sua perda, tendem a cumprir esse afastamento com um vago sentimento de terem sido injustiçados nas suas boas intenções, de desprezo face à sua amizade e ao apoio que lhes prestaram, ou mesmo indignados com a aparente arrogância com que aquele/a parece tratá-los (pensando, por exemplo, que «Agora que já tudo passou, já não lhe somos mais precisos», ou que «Só lhe servimos para os maus momentos, agora que já está bem só nos despreza»).

      Por outro lado, a pessoa em luto pode, de facto, «perder amigos» porque estes simplesmente não são capazes de permanecer na sua companhia no difícil processo do luto102. Habituados a amizades fáceis, ou mesmo superficiais, ligadas sobretudo ao lazer, ao prazer e ao desprendimento de vínculos afetivos mais íntimos, extensos e profundos que o mero convívio em tempos felizes, alguns amigos não conseguem (ou não querem) suportar um amigo que agora viva ao contrário de toda a boa disposição e de todo o divertimento. Em muitos casos, nunca houve, naquela amizade, grandes sinais de intimidade, extensão ou profundidade da sua parte (portanto, nunca houve sequer um vínculo «realmente afetivo»), mas, num momento de adversidade, é dele que a pessoa em luto necessita, contando com o seu apoio imediato e disponível. No fundo, espera desses amigos todo o apoio que, de uma forma geral, as pessoas esperam dos seus amigos, sejam eles mais ou menos chegados. Poderá, pois, ser para ela uma desilusão, ou mesmo uma traição, o afastamento dos seus amigos quando deles mais precisa.

      A tendência da pessoa em luto parece ser a de esperar que esses amigos, mais tarde ou mais cedo, possam vir falar-lhe sobre o seu luto, compreendê-lo num diálogo íntimo e reconfortante. Idealizam este momento e pensam em palavras de afeto e de segurança, ou num abraço durante o qual possam chorar à vontade a sua perda. Ou seja, esperam que, pelo menos, num qualquer dia, aqueles amigos sejam corajosos o suficiente para vir até si quebrar o seu silêncio e cessar o seu afastamento, lançando o desafio de se falar sobre temas tristes, diametralmente opostos aos que costumavam debater (temas, por exemplo, relacionados com música, futebol, locais de diversão noturna e política), ou simplesmente reforçar a sua presença amiga, apesar de toda a sua aparente recusa em relação ao convívio que antes tinham.

      Acontece, no entanto, e não raras vezes, que a pessoa em luto acaba por desistir desta espera, convencendo-se que a vastidão da sua dor, a sua presença sombria em qualquer ocasião, a sua pouca disposição para divertimentos, e até a sua irritabilidade e agressividade, foram causadoras de uma inibição desses amigos. Em alguns casos, desiste dessa espera, já convencida da pouca qualidade daquela sua antiga amizade, qualidade essa que nem chegou para lhe garantir, numa tão profunda dor, um apoio mais que o meramente circunstancial, ou intencional. Isto é, um apoio restrito à Fase da Crise, e ao momento da notícia da morte, quando todos manifestam o seu pesar, sejam amigos ou simples conhecidos.

      A pessoa em luto, pelo contrário, necessitava e requeria de um amigo muito mais que isso. Necessitava e requeria aquele apoio que ousasse estender-se pelos dias fora, pelas semanas, pelos meses e até anos, enquanto o Ciclo do Luto durasse: um apoio que não se reduzisse às poucas palavras e aos poucos gestos circunstanciais na Fase da Crise, mas que se fizesse presente com muitos sucedâneos ao longo do tempo, sobretudo na Fase da Desorganização. Ou seja: um apoio que soubesse ser insistente, e, logo, consistente – «palpável».

      Com isto, pode chegar ao convencimento de que não foi capaz de selecionar as «verdadeiras amizades», de fazer «bons e duradouros amigos»; que, na verdade, não é, e nunca foi, amada por eles (pelo menos o suficiente para merecer a sua coragem contra a imensidão da sua dor). E que, por fim, está muito só. Muito mais só que o que julgava estar, quando se deu a morte do seu ente amado e nos primeiros tempos depois desta.

      Esta constatação, no entanto, pode impelir a pessoa em luto para a busca de novas relações sociais, e, no contexto mais ou menos vasto destas, para a busca de novos amigos. Apesar da sua possível timidez, ou inibição, face à possibilidade de fazer novas amizades (sobretudo se tiver ficado desiludida com os seus «antigos amigos»), a necessidade de conviver e de desenvolver novas relações afetivas, compensatórias, poderão ser sinal da sua entrada na Fase de Organização. Novos amigos poderão, nesta fase, trazer novos perfis e novos tempos, uma renovação progressiva da sua vida, na riqueza do conhecimento de novas personalidades, no estabelecimento de novas interações e até de novas perspetivas sobre a amizade. Com tudo isto, inevitavelmente a pessoa em luto terá oportunidade de prosseguir na sua reestruturação enquanto pessoa.

      Por fim, aos amigos que sempre a acompanharam por todo o processo de luto, e que souberam permanecer apesar de todas as instabilidades e dificuldades deste, tenderá a devotar-lhes um grande reconhecimento e um especial afeto, quer já fossem amigos muito chegados à data da morte do ente amado (por vezes, amigos de há muito), quer se tivessem revelado mais próximos em tal circunstância. Num ou noutro caso, poderão ser extremamente valorizados na continuidade da sua história pessoal, testemunhando a fortaleza que neles encontrou nos piores momentos da sua vida e, agora, nos novos horizontes que se conquistam.




      • O processo de luto pode ser realmente muito doloroso. Pode alterar, com grande incisão, a maioria das conceções e dos comportamentos de uma pessoa. Perturba-a forçosamente, desviando-a, de modo acentuado, de todos os seus padrões normais de funcionamento, aos níveis pessoal, familiar, social e profissional.

        Não é por acaso que, para falar da morte de um ente amado, e do efeito traumático que teve numa pessoa, em quase todos os textos, as imagens, as metáforas parecem ser insuficientes ou insatisfatórias. A morte de um ente amado é descrita por algumas pessoas como «um grande terramoto», que, num só momento, devastou a sua vida, arruinando-lhe praticamente todas as suas estruturas. Portanto, abalando psicológica, física, profissional, globalmente. Muitas pessoas confessam que estiveram «quase a enlouquecer».

        No entanto, o luto, em si, não é uma doença psíquica. Ou seja, não é sinónimo de depressão psicológica ou de outras manifestações patológicas do foro psíquico. De facto, algumas características da pessoa em processo de luto e da pessoa deprimida, sendo comuns, podem ser facilmente confundíveis. Porém, uma pessoa em luto pode não estar necessariamente deprimida. Muitas pessoas em luto desejam ser (ou são aconselhadas por familiares e/ou amigos),desde cedo, medicadas com antidepressivos, isto é, com medicamentos que visam combater a depressão. Isto não facilitará, em muitos casos, a distinção entre um processo de luto e uma depressão, julgando-se que, ao combater as manifestações desta, está a resolver-se o processo de luto. A pessoa em luto que toma antidepressivos pode pensar, e fazer pensar, que passou de uma fase do Ciclo do Luto a outra (devido à supressão ou desaparecimento de determinadas reações, como a angústia, o choro, etc.), quando, na verdade, estas reações não aparecem por estarem inibidas «artificialmente».


      • Certos aspetos observáveis num processo de luto possibilitam a deteção de um Luto Patológico. Um deles é o Luto Negado durante muito tempo, com ausência de expressões de luto, logo na Fase da Crise. A pessoa simplesmente não admite que a morte ocorreu. Age como se esta nunca tivesse sido, sequer, noticiada. Não admitindo a morte como um acontecimento histórico, a pessoa não conseguirá desenvolver um processo de luto saudável, uma vez que se recusa a iniciá-lo.

        Trata-se de uma «negação psicológica integral», ou de uma «negação doentia da morte», diferente da que, na Fase da Crise, costuma observar-se. A pessoa, com enorme dificuldade em aceitar a realidade da perda, procura negar o que é inegável. Para isso, «prisioneira do seu próprio cenário», desenvolve comportamentos que colocam a morte do ente amado à margem do decurso quotidiano (por exemplo, não integra no seu discurso a informação de que ele morreu, falando como se ele ainda estivesse vivo; não participa nas exéquias; não trata de assuntos legais relacionados com sucessões e partilhas; não faz qualquer alteração nos seus hábitos diários; mantém todos os pertences do falecido exatamente como se ele vivesse e fosse chegar a todo o momento para os usar). Tudo continua a decorrer numa aparência de normalidade, o que chega a chocar familiares e/ou amigos, que julgam alguns destes comportamentos uma demonstração de frieza, de falta de afeto e de respeito para com a memória do ente que morreu. Esta dificuldade é mais expressiva em situações de morte inesperada, como a provocada por homicídio.

        Também observáveis são as reações desmedidas para expressar o luto. A pessoa tende a ter comportamentos inusitados e desproporcionados, já fora da Fase da Crise: portanto, já desenquadrados das reações tidas nos primeiros tempos após a receção da notícia da morte do ente amado (por exemplo, chorar compulsivamente em contextos sociais em nada relacionados com o ente amado ou com a sua perda; recordar o ente amado e gritar de angústia num local público, etc.).

        Segundo alguns autores, alguns casos de processos de luto são, de facto, irresolúveis. Mês após mês, ano após ano, o luto arrasta-se de fase para fase, sem que se possa aplicar-lhes, numa leitura linear, o Ciclo do Luto. As pessoas enlutadas não fazem uma natural evolução de fase para fase, até ao fim. E, doentiamente, perpetuam a passagem de fase, sem que o Ciclo possa terminar. Da Fase da Adaptação passam novamente para a Fase da Crise, sem fim para as suas tormentas – estão aprisionadas num Luto Crónico, também chamado por alguns de «Ciclo Perpétuo da Dor».

        O estabelecimento de um Luto Crónico dependerá essencialmente da estrutura psicológica da pessoa que o desenvolve, resultando da incapacidade de esta estrutura se adaptar ao acontecimento traumático da perda e de realizar o próprio luto (e aqui podem influir muitas e complexas variáveis, como acima foi explorado), mas também da qualidade de apoio prestado no processo por amigos, familiares e profissionais.


        Alguns aspetos observáveis na pessoa em luto podem delinear um esboço da sua tendência para desenvolver um Luto Crónico:

        • Um abrupto e intenso processo de luto começado apenas alguns meses depois da notícia da morte, sem que, até aí, não houvesse manifestações de luto, ou houvesse poucas;
        • Uma perturbação aguda, observável num período de três a seis semanas depois da receção da notícia da morte, com manifestações de choro e contínuo lamentar; profunda angústia; raiva persistente; culpabilização pronunciada; e autorrecriminação;
        • Quando não passou à Fase da Organização do Ciclo do Luto cerca de um ano após a morte do ente amado;
        • Tensão permanente, incapacidade de repousar e intensa saudade, mesmo depois das primeiras semanas após a receção da notícia;
        • O sentimento de que ninguém pode compreender a sua dor e/ou ajudá-la a sair do seu luto, mesmo após várias semanas após a receção da notícia.


        A avaliação das circunstâncias particulares em que um processo de luto se transforma em doença parece constituir a solução mais adequada para determinar a atitude a ter, por familiares e/ou amigos, ou por profissionais, para apoiar devidamente a pessoa enlutada. Se para umas pessoas são suficientes o calor humano, a força solidária de parentes e amigos, certos gestos simbólicos, a vontade de evoluir de fase para fase e também o apoio profissional, para outras, a complexidade e o perigo do processo, ao nível psicológico, requerem a intervenção especializada nas áreas da Psicologia e da Psiquiatria. Estas pessoas, sem este apoio especializado, e nomeadamente sem uma adequada medicação, podem ficar entregues a um mundo interior cada vez mais tenebroso, permanecendo encerradas na infelicidade. Poderão acabar, assim, por destruir-se a si próprias e por destruir as relações com os que as rodeiam.


      • É muito frequente, no entanto, que, em alguns processos de luto, se manifeste a Depressão. Esta pode comprometer o desenvolvimento saudável do processo, apresentando-se, com isto, o risco de se estabelecer um Luto Patológico (que mais à frente será referido). Isto pode acontecer sobretudo com pessoas portadoras de determinadas predisposições para a depressão (como, por exemplo, a existência de um percurso pessoal de vida conturbado já antes da morte do ente amado; a hereditariedade; a doença bipolar, etc.) ou que já anteriormente tinham sofrido depressões. Nos casos de luto causado pela morte de um ente amado num homicídio, a probabilidade de se desenvolver uma depressão é muito maior que noutros casos de perda por morte.

        Como já foi referido, a depressão pode transformar o processo de luto numa doença. Ou seja, uma depressão pode comprometer o desenvolvimento «normal» do processo, fazendo a pessoa enlutada estancar em determinadas fases do Ciclo de Luto, acabando por suscitar o Luto Patológico. Este pode apresentar-se de diferentes maneiras, estando, no entanto, quase sempre relacionado com o atraso na vivência de determinadas fases do Ciclo ou mesmo com a total recusa e com a permanência de um luto muito intenso e muito arrastado, associado aos tais ideações suicidas ou a sintomas psicóticos. Uma morte inesperada, como a de um filho ou do cônjuge ou companheiro; uma morte que deu lugar a terríveis transformações circunstanciais; ou uma morte violenta são fatores de risco para a formação de um luto patológico. Estudos recentes têm referido taxas consideráveis de lutos patológicos verificados em familiares de vítimas de homicídio, após vários anos.

        Outros dois fatores são também importantes: o já referido isolamento social a que se vota a pessoa em luto (por vezes, também por uma opção de «recolhimento», de «maior austeridade» no luto, comportamentos incentivados por determinadas culturas e/ou religiões); e a excessiva dependência em relação ao ente amado (por exemplo, o caso da mulher idosa que dependia do seu falecido marido em quase tudo: no sustento material, nas decisões a tomar, na opinião sobre pessoas e coisas, etc.)._

        A Depressão caracteriza-se, sobretudo, por progressivas alterações na saúde mental. A pessoa sofre de um humor diminuído ou oscilante; de falta de energia; de melancolia; de baixa autoestima; de perturbações do sono; e de uma certa incapacidade para efetuar as tarefas diárias, das mais simples às mais complexas. Um cansaço progressivo vai obrigando a um «arrastar-se» com esforço para continuar a sair de casa para o trabalho todas as manhãs. Chega mesmo a pensar que vai «morrer de tristeza».

        Podemos distinguir entre Depressão Reativa e Depressão Endógena.

        A Depressão Reativa pode verificar-se após um incidente que envolva uma perda significativa (como uma morte, por exemplo). A pessoa deprimida apresenta um humor triste, apatia, desmotivação para a vida ou para a realização de tarefas diárias, etc. Este estado pode prolongar-se mais do que seria esperado normal (aproximadamente um mês), passando a ser então considerada como patológica. No entanto, o facto de se demonstrar um estado depressivo, não significa que exista uma Depressão Endógena.

        A Depressão Endógena é estrutural e que já existia como condição clínica. Nestas situações, a perda de alguém vai agravar o estado depressivo, ou seja, agrava-se uma depressão já existente. Enquanto a recuperação das depressões reativas são essencialmente focadas no que aconteceu (na morte de alguém, por exemplo), nas depressões endógenas o processo de recuperação é baseado na história de vida da pessoa doente.

        A Depressão, seja Reativa ou Endógena, implica, frequentemente, um progressivo isolamento social, uma vez que tende a sentir-se «desenquadrada» de qualquer grupo e a sentir-se «diferente» dos outros; ou, por outro lado, porque começou a ser evitada pelos outros, que julgam estar desequilibrada (tanto pode estar relativamente «bem disposta», como, de súbito, ser agressiva). Este isolamento pode ocorrer ainda porque a pessoa tem consciência de que está particularmente irritável e teme desagradar e/ou magoar aqueles com quem convive, em especial os familiares e/ou amigos (isto acontece sobretudo quando já viveu anteriores momentos de tensão, provocados pelas suas oscilações de humor), afastando-se, ou evitando estar em grupo.

        Uma pessoa deprimida está realmente doente: logo, é conveniente que seja tratada. Quanto mais demorarem o diagnóstico e o tratamento, maior será o rasto de destruição que a depressão vai deixando na vida diária. Não se confunde a depressão com «estados gerais de tristeza» (pela morte de alguém, por exemplo): a depressão é uma doença complexa, dominadora, e pode estabelecer-se cronicamente se não for combatida. Em alguns casos, favorece o aparecimento de outras doenças do foro psiquiátrico e pode, efetivamente, levar à morte.

        De facto, a Depressão pode ser também acompanhada por ideações suicidas, podendo o doente tentar várias vezes matar-se ou podendo mesmo consegui-lo. Em muitos casos, expressa tal intenção, ou «tentação». É importante que seja tomado a sério por quem o escuta. Esta confissão pode ser mais que um «aviso»: pode ser um implícito pedido de ajuda. Alguns suicidas, no entanto, morrem num dia e num contexto em que seria muito difícil alguém perceber que iam cometer suicídio.

        Para uma pessoa deprimida, o suicídio pode ser perspetivado como a solução imediata para uma dor que já não suporta mais (ou para uma vida que já não deseja enfrentar sem o ente amado, em casos de deprimidos em luto). As ideações suicidas podem surgir sobretudo no contexto de uma depressão relacionada com a perda de um ente amado que foi vítima de homicídio, ou de homicídio, podendo a pessoa em luto nunca antes ter pensado em suicidar-se. Estes suicídios são mais frequentes nos homens, que nas mulheres.

        Depressão é ainda caracterizada por sintomas de ansiedade. Umas vezes motivada por acontecimentos concretos, ou por sensações muito difusas, a ansiedade limita bastante o bem-estar.

        As perturbações de pânico, que são manifestações extremas de ansiedade, caracterizam-se pelo desenvolvimento de ataques inesperados de pânico intenso quando o doente é colocado em determinadas situações particulares, ou devido ao medo de experimentar novos ataques (quando anteriormente sofridos). A causa exata que desencadeia os ataques de pânico varia de doente para doente, bem como a sua frequência. Os ataques de pânico podem ocorrer quando enfrenta situações especialmente difíceis ou cruciais (por exemplo, no ato de reconhecimento do cadáver do ente amado; ou encontrar o principal suspeito por acaso; ir a tribunal testemunhar; ou prestar um depoimento no âmbito do processo de investigação criminal). No entanto, podem também ocorrer em situações comuns, nas quais supunha nem ser possível sucederem, por serem, à partida, pouco suscetíveis de causar ansiedade. Num ataque de pânico, o doente não consegue controlar uma sensação de medo, emergente, rápido e violento. Tem dificuldade em respirar, sentindo tensão e constrangimento nos músculos do tórax. O ritmo cardíaco aumenta e pode chegar a pensar tratar-se de um enfarte. Também sente dificuldade em ter um raciocínio lógico, bem como em ter noção do tempo e do espaço. Tem ainda dificuldade (ou mesmo experimentar impedimento), em expressar-se verbalmente, não conseguindo pronunciar as palavras, ou construir frases longas (até porque não está a usufruir de uma adequada respiração). Durante o ataque, sente que está entregue a uma espécie de manifestação física superior às suas forças, dada inexplicavelmente em contextos e momentos que, em alguns casos, já eram habituais e nos quais nunca tivera problemas de desempenho. Frequentemente, após o ataque, mantém-se a vigência da ansiedade, sentindo-se os seus efeitos negativos no corpo (por exemplo, tendo dores de cabeça, cansaço e dores musculares) por vários dias, durante os quais se sente prostrado.

        A fobia social é outra das características da depressão. Está fortemente associada a um medo persistente de estar inserido em situações sociais diversas (por exemplo, estar num restaurante, num autocarro, numa reunião de trabalho, com amigos, etc.). O doente tende a evitar situações de convívio social, pois estas causam-lhe ansiedade ou angústia que, muitas vezes, são para si inexplicáveis. Estar com outras pessoas, mesmo que não seja forçoso interagir com estas (por exemplo, cumprimentar e/ou conversar), pode tornar-se, então, angustiante. Depois de uma, ou de várias situações sociais (por exemplo, num só dia), podem seguir-se vários dias de tristeza profunda. Nessas situações, pode ocorrer um ou mais ataques de pânico.

        Outra das possíveis alterações ao nível da saúde mental da pessoa em processo de luto é a do surgimento de pensamentos obsessivo-compulsivos. É uma alteração menos descrita, mas trata-se de uma reação enquadrada no processo de luto normal, sendo observável sobretudo na Fase da Crise e na Fase da Desorganização do Ciclo. Particularmente nas primeiras semanas ou meses do Ciclo do Luto, alguns pensamentos obsessivo-compulsivos inibem a capacidade de concentração da pessoa, que pensa, de modo constante e intenso, no ente amado. A sua atenção diminui e tende a esquecer-se de pequenas tarefas ou coisas do quotidiano (por exemplo, de onde deixou as chaves, onde estacionou o carro, etc.). Num caso de morte num homicídio, a concentração da pessoa está toda em torno da imaginação dos detalhes da morte do seu ente amado (quando não testemunhou o crime) e nos aspetos de que se recorda (por exemplo, na receção da notícia da morte, ou no momento em que viu o cadáver, etc.). No entanto, quando estes pensamentos se verificam durante anos, poderão constituir um sério problema de saúde mental.

        É, em muitos casos, aconselhável que a pessoa seja medicamente acompanhada, devendo evitar-se, sempre, que esta se medique a si própria, ou que outras pessoas, não qualificadas, o façam ou aconselhem a fazer, facilitando-lhes comprimidos e outros medicamentos, do seu próprio uso ou do uso de outrem. A pessoa precisa, geralmente, da ajuda de alguém da sua confiança para tomar corretamente os seus medicamentos, para que não suprima (por descuido ou por decisão própria) a toma sem ordem do seu psiquiatra, nem exceda a dosagem recomendada. As pessoas doentes podem obter melhores resultados quando são ajudadas por um familiar e/ou amigo a avaliar as melhoras sentidas e/ou os efeitos secundários da toma de determinada medicação. Deste modo, pode cooperar com o seu psiquiatra na alteração do protocolo seguido, ou na sua substituição.

  • O trauma, enquanto resultado de um impacto negativo, ou da experiência coerciva de determinados acontecimentos negativos, requer uma reparação das estruturas da pessoa que os sofre. Se estas não forem reparadas, os efeitos traumáticos persistirão ao longo do tempo. Uma pessoa traumatizada vive em sofrimento, sentindo-se insegura e dependente. Experimenta, então, sérias dificuldades numa multiplicidade de áreas da sua vida: nas relações pessoais e/ou afetivas, na família, no emprego, na estabilidade económica, na conservação da saúde física e mental, etc. O trauma implica o desequilíbrio persistente na existência da pessoa.

    Os acontecimentos traumáticos também desencadeiam algumas respostas fisiológicas no ser humano. As pessoas traumatizadas revelam padecer de mais problemas físicos que pessoas sem eventos traumáticos significativos na sua vida. Quando não são tratados, implicam queixas persistentes. Alguns não associam estas queixas aos acontecimentos traumáticos anteriores e abusam de substâncias, das quais podem criar dependências.


    Os diagnósticos são geralmente dois – a Perturbação Aguda de Stress (PAS) ou a Perturbação Pós-Stress Traumático (PPST). Ambos se diferenciam em intensidade e em duração e implicam sintomas de:

    1. evitamento
      O evitamento manifesta-se pelo início de depressão, por uma incapacidade de manifestar emoções ou tentativa de pensar no acontecimento traumático vivido.
    2. activação
      A ativação ou hiperalerta manifesta-se pela ansiedade, pelo aumento do ritmo cardíaco, pela ocorrência de suores e pelo aumento considerável da tensão arterial.
    3. intrusão
      A intrusão implica a ocorrência de pensamentos indesejados, imagens intrusivas ou flashbacks, e de pesadelos.


    Quando cada uma destas três áreas de sintomas está presente mais de quatro semanas, estamos diante de uma PPST.

    Quando existem sintomas das três áreas num período inferior a quatro semanas, estamos diante de uma PAS.


  • Um homicídio origina sempre um grande interesse por parte dos órgãos de Comunicação Social. Frequentemente, no local, os jornalistas são dos primeiros participantes, ou assistentes, das operações ali desenvolvidas. Frequentemente, procuram entrevistar os profissionais responsáveis por estas operações e os familiares e/ou amigos das vítimas que acorrem ao local (ou que já ali se encontravam), cuja identificação é fácil de fazer pelo seu próprio comportamento naquela perda (por exemplo, chorando, gritando, desmaiando, etc.). Esta tentativa pode ser vista, por alguns, como aproveitamento da sua fragilidade num momento tão crítico. Um familiar e/ou amigo de uma vítima, nesse momento, não estará capacitado para dar entrevistas, nem preocupado com outra tarefa que não seja saber e/ou fazer algo pelo seu ente amado, esteja este já morto ou ainda vivo.

    No entanto, um homicídio é um acontecimento importante para o conhecimento público. A Comunicação Social tem, pois, um papel muito relevante, devendo haver uma verdadeira colaboração entre os jornalistas e os profissionais implicados nas operações. Em vários, as autoridades competentes fazem um comunicado oficial sobre o homicídio e/ou organizam uma conferência de imprensa, na qual o mesmo comunicado é feito, com, ou sem, a possibilidade de os jornalistas fazerem perguntas sobre determinados detalhes. Neste comunicado, ou na conferência, são veiculadas determinadas informações, criteriosamente selecionadas e respeitadoras do luto dos familiares e/ou dos amigos das vítimas.

    Tanto o comunicado, como a conferência de imprensa são muito importantes, por salvaguardarem os familiares e/ou os amigos das vítimas, poupando-os minimamente à exposição da sua dor, da sua fragilidade e do seu luto. No entanto, não são raras as vezes em que a exploração do acontecimento é feita pelos jornalistas muito além do que as autoridades julgaram ser sensato comunicar. Dependendo dos órgãos de Comunicação Social e de cada jornalista em concreto, a abordagem do tema pode ser, ou não, intrusiva e ofensiva para os familiares e/ou amigos das vítimas.

    Em alguns casos, a exploração mediática toca aspetos delicados da biografia das vítimas. Noutros, implica a fotografia do local do homicídio (por exemplo, com sangue sobre o chão); do funeral das vítimas; ou mesmo dos seus cadáveres, o que horroriza os seus familiares e/ou amigos, que se deparam com estas imagens potencialmente traumáticas.

    A posse destas imagens em arquivo permite aos jornais e revistas, e à televisão, o seu uso posterior, sempre que quiserem noticiar algum desenvolvimento no processo de investigação criminal, ou quanto à sua evolução já em tribunal; ou ainda quando quiserem elaborar determinadas peças sobre o homicídio. Os familiares e/ou amigos das vítimas ficam, assim, sujeitados à possibilidade de reverem tais imagens, em qualquer data futura (mesmo anos depois), sofrendo a exposição pública da sua perda e a biografia do seu ente amado. Não raras vezes, estas imagens desencadeiam respostas traumáticas, sobretudo por serem inesperadas e inevitáveis.

    No entanto, é natural que os familiares e/ou amigos desejem, já na Fase da Desorganização do Ciclo do Luto, recolher toda a informação que, um dia, foi veiculada sobre o seu ente amado, ou que está disponível em arquivo. Essa recolha pode ser uma tarefa saudável, pois ajudará a lidar com a perda organizando a memória do ente amado através da reconstituição da sua vida e, particularmente, dos seus últimos dias – trata-se de fazer uma espécie de «biografia». Com efeito, a ignorância dos factos ocorridos em torno de uma morte, tem sido descrita como uma realidade perniciosa para as pessoas que perderam um ente amado e estão em processo de luto.